É verdade, o Brasil já tem problemas demais para o centro das nossas preocupações se tornar a Venezuela. Mas a questão é, queiramos ou não, que nas próximas décadas a Venezuela terá presença confirmada em qualquer debate sobre projetos para a América Latina. Sim, a Venezuela. País que até 1999, ano da chegada de Hugo Chávez ao poder, era invisível na cobertura da mídia corporativa brasileira.

Um equívoco comum, que cometem muitos brasileiros (de esquerda ou de direita) ao falar sobre a Venezuela é considerar o “Bolivarianismo” de Hugo Chávez e o governo Lula como uma coisa só (ou algo muito parecido).

Não foram. Muitas diferenças marcaram essas duas experiências de governo na America Latina.

Reformas Estruturais e o enfrentamento com as elites econômicas nacionais

Ainda que tenha estabelecido uma relação de parceria com um setor da elite econômica venezuelana (a Boliburguesia), Chávez, ao tomar os frutos da exploração do petróleo – antes nas mãos de poucos – e coloca-los nas mãos do Estado, travou ao menos uma importante batalha com a elite econômica de seu pais. Por meio dessa conquista popular, seu governo pôde viabilizar diversos projetos sociais nas áreas mais pobres da Venezuela.

Já Lula não realizou nenhum enfrentamento com a classe dominante. Pelo contrário, garantiu aos banqueiros o maior lucro de sua história e turbinou o poder econômico dos ruralistas (que logo se metamorfoseou também em poder político). Injetou ainda bilhões em dinheiro público nos oligopólios de comunicação, nas construtoras e nos chamados “campeões nacionais”.

Ao contrário de Chávez, Lula não realizou nem uma reforma estrutural sequer (não teve reforma agraria; não teve reforma tributária progressiva; diferente do Equador, não realizou auditoria da dívida….. Seguiram intocados todos os mecanismos que fazem da sociedade brasileira uma das mais desiguais do mundo.

Uma das poucas conquistas sociais nos anos do Lulismo, a elevação da capacidade de consumo entre os mais pobres, de tão frágil, já está sendo destroçado pelo aumento do custo de vida e pelas políticas de austeridade hoje implementadas pelo vice escolhido pelo próprio PT.

Relação com a decadente democracia representativa

Chávez e sua Constituição bolivariana tiveram a ousadia de propor mecanismos inovadores e mais democráticos do que a limitada democracia representativa (com seus parlamentos regados a negociatas). Propôs referendos, constituintes e até mesmo um mecanismo de “recall” – um referendo revogatório em que a maioria da população pode decretar o fim de um governo.

Apesar de ter aprovado – por meio de referendo popular – uma perigosa possibilidade de reeleição ilimitada, o próprio direito de Chávez seguir governando foi testado duas vezes por referendos revogatórios, sempre com vitorias para as forças bolivarianas.

Já Lula não inovou. Os conselhos sociais e encontros setoriais criados durante seu governo se tornaram instancias cartoriais, pois o centro de sua governabilidade se manteve nos acordos com partidos fisiológicos como o PMDB. Utilizando-se até mesmo dos mesmos operadores de esquemas dos governos de direita que o antecederam.

Relação com o Império do Norte

Mesmo que Lula e Chávez tenham se alinhado internacionalmente nos anos que governaram, a relação que estabeleceram com os EUA não foi a mesma nesse período.

Apesar de seguir comprando o petróleo venezuelano, não foram poucas as vezes que o governo norte-americano fez demarcações e críticas a Chávez na comunidade internacional. Barack Obama, pouco antes de deixar a presidência, renovou uma ordem executiva que declara que a Venezuela constitui uma “ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos EUA”. Isso para não falar das recentes sanções de Trump à Venezuela – mantendo a tradicional política externa do país de crítica às violações de Direitos Humanos de opositores políticos e silenciamento em relações aos seus aliados, como a Arábia Saudita, que está prestes a condenar 14 opositores a morte por decapitação.

Já os governos petistas, apesar de pilotarem uma política internacional mais independente do que seus antecessores, contou com uma relação bem mais cordial. Bush veio ao Brasil e foi celebrado por Lula. Barack Obama veio ao país em 2011 para “coroar” a sucessora petista recém-eleita – Dilma Roussef.

Apesar de diferenças tão substanciais, é verdade que existiram elementos comuns a ambas experiências:

A cor vermelha

Para os lunáticos de plantão, um lembrete: o partido Republicano norte-americano também adota a cor vermelha (embora esteja mais à direita no espectro político). “Camisas vermelhas” era o nome dos apoiadores do ex-primeiro ministro Tailandês – e empresário bilionário –, Thaksin Shinawatra…
Ou seja: cor não quer dizer muita coisa. Portanto, vamos discutir o que realmente importa: política.

Modelo de desenvolvimento

A convergência mais significativa entre as experiências petistas e chavistas é que ambas apostaram no preço elevado das commodities (petróleo e derivados, ferro, soja…) no comércio internacional para ancorar sua política de crescimento. O petróleo chegou a representar 96% do valor total das exportações venezuelanas.

(É importante lembrar que outras vertentes de governo na América Latina também fizeram a mesma opção de desenvolvimento).

Só que, como qualquer economista podia prever: chegou o dia em que a China desacelerou e esses preços despencaram. O preço do petróleo que já chegou a 101,04 dólares por barril, despencou para 35,15 dólares em 2016.

Carisma e apoio popular

Ao surfar na maré internacional favorável, tanto Lula quanto Chávez foram capazes de transformar seus carismas em amplo apoio popular. Mas o(a)s sucessores de ambos amargaram o rebote da aposta econômica equivocada de seus antecessores.

No caso brasileiro, a oposição de direita, ao vislumbrar a fragilização da liderança petista, resolveu dar um golpe parlamentar.

Que bom teria sido se aqui no Brasil tivéssemos o mecanismo democrático da constituição bolivariana. Ao invés de um impeachment ilegítimo, teríamos tido um referendo revogatório para discutir a continuidade ou não de Dilma – e uma eventual eleição para discutir projeto de pais. O PT poderia ter proposto isso, mas apostou nos caminhos viciados das negociatas palacianas. Perdeu.

E perdemos: por que o país se lançou num governo que implementa uma plataforma não discutida nas urnas com impactos sociais que deverão durar décadas.

A então oposição de direita brasileira confirmou uma já longa tradição de desrespeito à democracia pela direita latino-americana. Que passou pelo golpe contra Arbenz (Guatemala), João Goulart, Alliende no Chile, Honduras… e tantos outros.

A oposição Venezuelana também já tentou dar um golpe, em 2002, muito mais violento do que o recentemente vivenciado no Brasil. Mas lá, diferente daqui, a população foi às ruas para exigir o retorno de Chávez ao poder.

E em todos os processos eleitorais, desde então, Chávez derrotou a oposição de direita. Até chegar 2013 e Maduro ganhar as eleições por uma diferença de apenas 1,5% de votos sobre Henrique Capriles. E em 2015 perder a maioria no Congresso Nacional (Assembleia Nacional) – quando a oposição conquistou 2/3 das cadeiras. E desde então, Maduro tem se negando a realizar um referendo revogatório (o mesmo tipo de referendo tantas vezes vencido por Chávez).

A esquerda radical contra o Golpe

Foi correta a posição da esquerda radical no Continente de se alinhar contra o Golpe parlamentar no Brasil. Estava correta também a defesa que fazia da experiência Bolivariana da Venezuela. Não só pelas políticas sociais que implementava, mas também pelas diversas demonstrações de amplo apoio popular.

Mas, ao que tudo indica, esse apoio popular se desfez…

É verdade que a oposição jogou baixo interrompendo a circulação de mercadorias? É verdade.

Mas por que Maduro não aproveitou a oportunidade para reestruturar a economia em moldes solidários e associativos?

É verdade que a oposição venezuelana contou com farto apoio material da elite econômica e de organismos internacionais? É verdade. Por exemplo: Wikileaks revelou que, apenas entre 2004 e 2006, a Usaid – agencia norte-americana – doou nada menos que US$ 15 milhões a mais de 300 organizações da sociedade civil venezuelanas.

Mas o problema é que, mesmo por meios ilegítimos, a oposição convenceu as maiorias sociais de que Maduro e o PSUV não são mais uma direção respaldada na sociedade venezuelana.

Vale então seguir governando sem apoio popular?

É possível construir uma transição ao socialismo “por cima”, capitaneada pelo Estado, sem protagonismo das maiorias?

A luta de classes é uma longa estrada com altos e baixos. Em que cabe a esquerda radical, com a força da sua coerência, demonstrar aos que vivem do próprio trabalho como se dão as relações de exploração e como se estruturam os interesses de classe.

Se, infelizmente, a América Latina hoje vive uma maré conservadora, paciência histórica. Será pedagógico para os povos Latino-americanos lembrarem como se dá a gestão governamental pela direita no continente.

Ou alguém acha que a oposição de direita na Venezuela será capaz de resolver as agruras de seu povo?

No caso brasileiro, apesar de tantos retrocessos, o desastre Temer tem sido bastante pedagógico.

Não que devamos ficar de braços dados esperando a derrocada desses governos de direita (ou potenciais governos, no caso venezuelano). É tempo de as forças progressistas estarem nas ruas conversando diuturnamente com a população e construindo espaços de poder popular.

Infelizmente, não é o que está acontecendo no Brasil. Em que a esquerda petista continua bastante acomodada com os marcos da democracia representativa. E a esquerda radical segue muito aquém da sua tarefa histórica de estar nas ruas.

Controle a qualquer custo

No caso Venezuelano, ao invés de dar prioridade à preservação das forças e do espírito combativo do povo bolivariano, Maduro optou por permanecer no controle do Estado a qualquer custo. O governo parece reconhecer que não conseguirá permanecer no poder se isso depender do apoio eleitoral da maioria da população e do cumprimento da Constituição de 99.

O caminho escolhido por Maduro para enfrentar a direita não pode contar com nosso apoio. Esvaziar o congresso – em que hoje ele tem minoria – ou criar uma constituinte que não conta com a participação de nenhum setor critico, não parece ser um bom caminho para avançar a aposta bolivariana.

Se Maduro estivesse rompendo com as regras do jogo da democracia representativa para propor algo mais avançado e democrático, deveria contar com o mais amplo apoio das forças populares da América Latina.

Mas, aparentemente, não é isso que está fazendo. Desde fevereiro de 2016, Maduro governa através de estado de exceção. Desde abril, já são mais de 2800 manifestantes detidos (mais de 200 permanecem presos). Muitos jovens detidos nos protestos foram acusados de terrorismo e enviados diretamente a tribunais militares.

Militarização

Além disso, segue em curso uma crescente militarização do pais. Quando a recente onda de protestos ultrapassou Caracas e tomou outros estados, gerando saques, bloqueios de ruas e estradas e ataques a instalações policiais, o governo intensificou o papel do Exército no controle da ordem pública. Todos os elementos diários do cotidiano são dirigidos hoje pelas Forças Armadas: os alimentos, a circulação, os metrôs, as farmácias. (Será valido mandar aquele(a)s brasileiro(a)s que tanto sonham em viver sob uma junta militar que se mudem para a Venezuela?).

Um dos problemas de empregar os militares em áreas estratégicas da economia está ligado ao calcanhar de aquilhes do governo: a corrupção. Em dezembro do ano passado, uma reportagem da agência AP trouxe relatos de comerciantes que compram alimentos no mercado negro dos militares, ou que afirmam terem pago propinas diretamente ao ministro de alimentos, o general Rodolfo Marco Torres.

Aparentemente, para um setor Madurista, muito mais do que a preocupação com retrocessos em direitos sociais, o real motivo para não aceitar a transferência de poder é que eles terão dificuldade de seguir gozando dos frutos da corrupção, caso a oposição, igualmente corrupta (a Odebrecht que o diga!), chegue ao poder.

Outro equivoco de Maduro é que, ao invés de promover um debate nacional sobre alternativas ao extrativismo predatório, que há um século caracteriza a economia venezuelana, o presidente optou por lançar o país num novo padrão extrativista-rentista.

O maior exemplo é o projeto do arco Mineiro do Orinoco propõe a abertura de 112.000 quilómetros quadrados, 12% do território nacional, a grandes empresas mineiras transnacionais. Este megaprojeto, se for levado a cabo, constituirá mais um passo no etnocídio dos povos indígenas habitantes dessa região. Terá também devastadoras consequências socioambientais ao deteriorar parte da floresta amazônica, destruir a diversidade ecológica e afetar as principais fontes de água e as barragens hidroelétricas que abastecem 70% da eletricidade que se consome no país.

Por outro lado…

Não nos cabe tampouco, apoiar a oposição capitaneada por Leopoldo López e Capriles Radonski. Pois além das nossas diferenças ideológicas não concordamos com os métodos anti-democraticos dessas forças políticas. Não apenas apelas pela participação de seus lideres no golpe de 2002, que demonstra o caráter igualmente autoritário desta oposição.

Entre tantos episódios de violência, são chocantes as imagens em que opositores espancam e incendeiam o jovem Orlando Figuera (seja por ele ser chavista ou por ter tentado furtar algo, como argumenta a oposição, é um crime bárbaro praticado por uma corrente política). Além dos diversos assassinatos de lideranças do partido de Maduro, PSUV, cuja suspeita recai sobre a oposição de direita.

Temos, assim que estar na linha de frente da denúncia de qualquer golpe ou intervenção externa que venha a ser tentado pela oposição de direita venezuelana.

Independência

Por isso, nos resta nesse momento apoiar os caminhos traçados pelo chamado “Chavismo Crítico”. E torcer para que a população venezuelana não siga refém da disputa sangrenta, pavimentada por notícias fraudulentas (de ambos os lados!) e seja capaz de construir um novo projeto de pais que vá além do entreguismo do MUD ou do extrativismo petroleiro do PSUV!

35% dos venezuelano(a)s já se entendem como independentes – nem chavistas nem oposicionistas. Que esse setor se torne majoritário, galvanizando os diversos setores do chavismo crítico e os mais pobres do pais, fazendo a experiência bolivariana avançar.