A Campus Party teve sua primeira edição em Brasília na semana passada, de 14 a 18 de junho. No sábado, 17, um dos destaques foi o hacker Richard Stallman, fundador do Movimento Software Livre (saiba mais). Ele também foi desenvolvedor do sistema operacional GNU, geralmente utilizado junto ao Linux. Em entrevista ao Meio & Mensagem, ele compartilhou sua visão sobre publicidade, economia compartilhada e uso de dados no ambiente digital. Confira abaixo:

Você é um crítico da economia compartilhada. Quais são os problemas de companhias como Uber e Airbnb?

Compartilhamento é quando as pessoas se ajudam mutuamente em um espírito de comunidade, e essas companhias não tem nada a ver com isso. O Airbnb é um corretor para aluguel de cômodos de curta estadia. Não acho que o negócio é inerentemente ruim, ainda que cause problemas em algumas circunstâncias. Eu não usaria o Airbnb pelo fato de ele identificar as pessoas em sua base de dados. O Uber também é parte da economia da exploração, sendo injusto a seus motoristas ao pagar tão pouco a eles. O que é ainda pior, ele é injusto a todos os consumidores ao rastreá-los e fazer com que executem um software não-livre que é também um malware, rastreando usuários antes e depois da corrida.

Esses aplicativos não oferecem, de alguma forma, um diferencial em relação às companhias tradicionais, considerando a participação de membros da comunidade e novos modelos de troca de capital?

Não acredito que faz sentido comparar isoladamente uma companhia, como o Uber, a uma companhia tradicional em geral. Deveríamos comparar o Uber com outros táxis comuns e com outros sistemas de transporte. O que percebemos é que o Uber é inclusive pior em todas as dimensões éticas, principalmente em relação à liberdade dos passageiros. O fato de uma plataforma executar um software livre ou proprietário internamente não determina se ela trata os seus usuários ou trabalhadores de forma ética ou não.

Talvez os softwares do Uber já sejam livres (eu chutaria que os servidores do Uber funcionam com base no GNU/Uber e algum outro software desenvolvido por eles, também livre). Se o Uber usar algum software não-livre, é algo ruim para ele, mas isso não muda nada para motoristas e clientes. Acredito que governos deveriam fazer leis que exigissem que todos os meios de transporte oferecessem um modo de uso anônimo.

“O problema dos anúncios é que a maioria deles é vigilante, e a vigilância é um ataque à liberdade”

O que você pensa sobre publicidade digital e adblockers?

Não me importo se verei anúncios ou não, a menos que eles sejam apresentados de forma irritante, então não uso ad-blockers. Contudo, me recuso a ser rastreado e vigiado na internet, e por isso utilizo um browser que bloqueia a maioria das ferramentas que os sites utilizam para rastrear as pessoas — e isso inclui a maioria dos anúncios, mas não todos. O problema dos anúncios é que a maioria deles é vigilante, e a vigilância é um ataque à liberdade.

Muitas companhias e aplicativos tem utilizado algoritmos como um pretexto para recolher dados e produzir uma experiência mais personalizada. O que você pensa sobre isso?

Eu particularmente não desejo a personalização e posso escolher por mim mesmo. Me preocupo com a vigilância, e portanto me recuso a deixar companhias saberem meus gostos. Eu acharia útil um serviço que me dissesse “se você utiliza A e B, tente C”. Se me deixassem anonimamente perguntar por sugestões, não haveria problema algum, e então eles poderiam, por exemplo, cobrar um pequeno valor por sugestão dada ao usuário. As companhias que já categorizam as pessoas por perfis, no entanto, não serão capazes de oferecer uma opção que não exija a criação de um perfil. Será preciso dissuadi-los por meio de legislação.

Muitos fundadores de empresas de tecnologia começaram suas vidas no mundo hacker, utilizando códigos-fonte e bases de dados amplamente distribuídas para fundar suas empresas. O que isso diz sobre o mundo da programação?

Isso significa que só porque uma pessoa gosta de hackear, não significa que ela se importe em respeitar a liberdade de qualquer outra pessoa. A maioria dessas empresas subjuga seus usuários com softwares não-livres e então vigia o que seus usuários fazem.

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