Muito próximo de nós, em praticamente toda casa, sala de aula ou escritório, há pelo menos um eleitor do Bolsonaro.

E, apesar de concordarmos que estas pessoas estão com uma péssima ideia na cabeça, estamos diante do seguinte problema: não conseguimos conversar com eles. Foram sugeridas várias soluções para este problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente a ofendê-los ou a chamá-los de bolsominions, o que, convenhamos, também é uma ofensa.

Este é um guia para você, que quer conversar com seu pai, uma prima, aquele tio distante, enfim, pessoas próximas. Muitas vezes são pessoas que você ama, e simplesmente não dá para falar de política com eles.

A primeira coisa que a gente precisa fazer é NÃO ENTRAR EM PÂNICO.

A segunda coisa é não cair na armadilha de ser intolerante.

Como já vimos acima, a maior parte das pessoas que vão votar no Bolsonaro são como quaisquer outras. Chamar todo mundo que não concorda com você de nazista só fortalece a intolerância, o clima de ódio e cria uma falsa polarização moral no debate público (a socióloga Sabrina Fernandes tem chamado esse fenômeno de ultra-política – clique aqui para saber mais – um conceito resgatado do filósofo Slavoj Žižek).

Passadas estas duas etapas, é preciso entender os motivos que levaram seu interlocutor a apoiar o Bolsonaro.

Tem pessoas que estão tão cansadas e desesperançadas que precisam acreditar num salvador da pátria porque de outro modo não enxergam outra saída para solucionar os problemas do país. Há aqueles que não aceitam as mudanças morais que vem acontecendo na sociedade, e/ou acreditam que foram justamente essas mudanças que causaram a atual situação de crise, e enxergam no capitão um defensor dos “bons costumes” que vai fazer tudo “voltar a ser como era antes”.

E por aí vai.

O que eu nunca escutei, numa conversa cara a cara (na internet é outra história, você pode estar falando com um robô, alienígena, militante pago etc), foi alguém dizer que vota Bolsonaro porque concorda com 100% das suas ideias (e isso é normal, se você concorda com tudo que alguém ou algum partido/instituição faz, provavelmente você não a conhece o suficiente).

A  terceira coisa a ser feita, depois de não entrar em pânico e escutar o que levou seu amigo, parente ou desconhecido a apoiar o Bolsonaro, é conversar com a pessoa. Isso é indispensável. Mas é fundamental dialogar com argumentos ao invés de adjetivos.

Se você está lendo um livro e o autor diz que o personagem tem o corpo e olhos “bonitos”, convenhamos, isso não explica muita coisa. Agora, se o autor diz que “seus expressivos olhos possuem o mesmo tom de sua pele escura”, você já consegue imaginar um homem ou uma mulher com essas características.

Dizer que Bolsonaro é feio, bobo e homofóbico não adianta. Se você está, por exemplo, diante de uma pessoa que afirma se importar com a luta contra os privilégios dos políticos, lembre-a que Bolsonaro sempre votou pelo aumento do próprio salário, recebeu auxílio-moradia mesmo tendo imóvel próprio em Brasília e empregou uma funcionária fantasma (relembre o caso aqui). Ou, mais importante, fale das suas ideias, das ideias do seu candidato. Lembre-se que você conhece a pessoa com quem você está conversando, e provavelmente ela está bem intencionada – e na verdade ela só precisa conversar com alguém que a respeite para mudar de ideia. Muitas vezes ela só precisa desabafar.

Há boas ideias e excelentes candidatos nos mais variados partidos e o mais importante é que nenhum deles vai mudar nada sozinho. Aliás, se elegermos um Congresso com maioria progressista e de esquerda, mesmo um eventual governo Bolsonaro não conseguiria cumprir as promessas de campanha, porque tudo passa pela Câmara e o Senado. Já escolheu seu candidato ou candidata? Já falou dele/a para os amigo/as e familiares? Ajudou a financiar a sua campanha?

Como diz meu candidato ao governo do Rio, só a luta muda a vida, e a luta precisa sempre ser coletiva.

Vamos juntos, rumo a uma sociedade mais justa, solidária e democrática.