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Muitas mentiras contadas milhares de vezes fazem com que nada pareça verdade: conheça o “firehosing”

Está praticamente impossível falar de política com qualquer um que já não concorde com a gente.

Você tenta falar de um assunto sério ou simplesmente explicar que NÃO, as urnas eletrônicas não são usadas apenas no Brasil, Cuba e Venezuela e a coisa descamba pra kit gay, xingamentos e até supostas declarações do candidato A ou B defendendo coisas como a pedofilia e o incesto.

Como chegamos a essa situação?

Para entendermos como tudo isso começou precisamos voltar para março de 2014. A Ucrânia havia acabado de ser invadida por tropas russas, que estranhamente vestiam uniformes verdes sem insígnia (foram inclusive chamados de “little green men”, algo como pequenos homens verdes). Em suas primeiras entrevistas (em inglês), o presidente da Rússia Vladimir Putin simplesmente negou que aqueles soldados fossem russos. Apesar de todas as provas (inclusive em vídeo), ele dizia que eram apenas cidadãos locais, e chegou ao cúmulo de acusar as autoridades locais de excesso de violência e ameaçá-las publicamente, dizendo que “esperava não precisar enviar tropas russas para a Ucrânia”.

A imprensa mundial e local falou exaustivamente sobre a situação, até que, algumas semana depois, em outra entrevista (também em inglês), Putin afirmou exatamente o oposto: “é claro que tínhamos tropas lá”.

Não, o presidente não estava louco. É que o objetivo não era explicar, era confundir a opinião pública e, dentre outros efeitos esperados, colocar em xeque a credibilidade da imprensa (afinal de contas, os soldados são ou não russos? “A imprensa não se decide”).

Esta tática (que tem sido usada pelo menos desde 2008 na Rússia) foi estudada e apresentada por um artigo de 2016 chamado “Russian Firehose of Falsehood Propaganda Model” (disponível em inglês e em russo). A tradução literal seria algo como “O modelo de propaganda russa da mangueira de incêndio da falsidade”, que eu prefiro traduzir como “O modelo de propaganda do Jato de Mentiras“.

Ou, se quisermos resumir toda a teoria numa única frase:

Muitas mentiras contadas milhares de vezes fazem com que NADA pareça verdade.

Este método de propaganda possui algumas características da propaganda usada pela União Soviética durante a Guerra Fria (pausa para a ironia de logo o Bolsonaro utilizá-la…), como a ênfase em esconder as fontes (afinal, onde “nascem” as fake news? ninguém sabe) e na obtenção de alvos que trabalham no interesse do propagandista sem se dar conta disso (sim, estamos falando do seu tio que fica mandando mentiras no Facebook e Whatsapp).

Só que, para além disso, o Jato de Mentiras possui duas características únicas: um alto número de canais e mensagens (possibilitado pela facilidade e baixo custo para se criar e espalhar conteúdo pelas redes sociais) e a intenção clara de disseminar verdades parciais ou até mentiras óbvias, porque importa mais a velocidade e quantidade do que o conteúdo fazer sentido (ou alguém em sã consciência realmente acredita que o PT distribuiu mamadeiras em formato de pênis em creches, como acusa uma fake news recente?).

Por essas características o método é chamado de Jato de Mentiras: cria-se um fluxo grande, constante e repetitivo de mensagens obviamente mentirosas e/ou duvidosas vindo das mais diferentes fontes e formatos. É um tipo de conteúdo que entretém (mesmo quem compartilha muitas vezes não acredita na notícia, mas se diverte e perde tempo ali), confunde (colocando em dúvida a credibilidade de pessoas públicas, jornais e instituições) e sobrecarrega o público (que fica cansado de tanta informação e prefere não acreditar em mais nada).

E o pior é que tem dado certo

Sabe aquela máxima “a primeira impressão é a que fica”? Não é por acaso que as fake news surgem logo assim que acontece um fato, como no caso da morte da Marielle em que havia boatos circulando antes mesmo da confirmação do que havia acontecido. Outras vezes, aparecem até antes do fato acontecer – como no caso do boato espalhado no final de setembro, que dizia que Adélio (que deu a facada no Bolsonaro) daria uma entrevista no dia 5 de outubro à imprensa revelando que a facada havia sido armação da campanha do próprio Bolsonaro (uma fake news para alertar as pessoas de uma possível fake news futura, a que ponto chegamos).

A repetição das mesmas mentiras o tempo todo também não acontece por acaso. Repetição gera familiaridade, e com o passar do tempo as pessoas se lembram apenas da notícia, não necessariamente de informações específicas ou mesmo se a notícia inteira era falsa.

A sobrecarga de informações, por sua vez, induz as pessoas a tomar atalhos na hora de conferir se a mensagem é verdadeira ou falsa. Se o conteúdo confirma, por exemplo, a sua visão de mundo ou algo que você já pensava ser verdade, é muito provável que você aceite aquela mensagem sem necessidade de checar as fontes – principalmente se ela foi enviada por um amigo ou familiar, como acontece no Whatsapp.

Mesmo a inconsistência das mensagens (como no caso em que o vice do Bolsonaro criticou o 13° salário para logo em seguida o próprio Bolsonaro desautorizá-lo) acaba tendo um efeito positivo em boa parte do público, que ignora as contradições e acredita que o candidato teve uma boa razão para ter mudado de opinião (tornando-se mais “gente como a gente”) ou para desautorizar o aliado. É possível ver claramente o padrão porque a campanha fez exatamente a mesma coisa com outros temas, como a suposta volta da CPMF e a proposta de alíquota única do Imposto de Renda: o economista Paulo Guedes (ou alguém da assessoria) planta uma notinha num jornal de grande circulação, a notícia se espalha na internet e surge o “mito” para desmentir os fatos, apresentar uma solução e dizer que é tudo fake news e intriga da oposição mentirosa (que acaba alimentando ainda mais a ultra-política, falo mais sobre esse conceito aqui).

A inconsistência e as contradições ainda criam uma armadilha adicional para os opositores: até hoje vejo a campanha do Haddad espalhando, por exemplo, a notícia de que “Bolsonaro defende a volta da CPMF”. Só que isso, em vez de fazer as pessoas mudarem de opinião, só reforça a ideia de que a campanha do PT é mentirosa – já que o candidato do PSL desmentiu esse boato. E o problema é que no final das contas a gente não consegue ter certeza de nada, já que, apesar de o Paulo Guedes ter sido desautorizado pelo candidato, o Bolsonaro também já falou que não entende nada de economia e que o Paulo Guedes vai ter carta branca para fazer o que quiser.

Mesmo vencendo com larga margem no primeiro turno, Bolsonaro chegou ao absurdo de dizer que as urnas eletrônicas não são confiáveis, e que teria “ganho no primeiro turno se não fosse por essa manipulação”. A realidade, nesse momento, já não importa, porque eles possuem o PODER de moldá-la como quiserem. 

Como enfrentar o Jato de Mentiras

O primeiro passo é reconhecer o problema, e que não será nada simples enfrentá-lo. Não estamos falando aqui de teorias da conspiração, são técnicas de comunicação identificáveis e que estão sendo usadas em várias partes do mundo, como nas últimas eleições norte-americanas.

O segundo passo é entender que no momento talvez precisemos não de um Jato de verdades, mas de uma capa de chuva.

As fake news ganham vantagem oferecendo a primeira impressão, o que é difícil de superar. Se, no entanto, o público já foi preparado com informações corretas, a desorientação vai se encontrar no lugar que hoje ocupa a checagem de fatos. Em outras palavras, a educação é mais importante do que nunca, e não necessariamente a formal – uma formação crítica. Outra maneira de fazer isso é a esquerda pautar o debate público de modo ativo, não podemos ter medo de falar sobre nossas ideias e propostas e colocá-los na defensiva, no papel de ter que desmontar nossos argumentos. Há anos que as nossas pautas tem sido apenas a defesa de direitos já conquistados, e com isso perdemos a capacidade de sonhar e de encantar as pessoas.

Também é mais produtivo destacar os métodos de manipulação que tem sido utilizados (o que estou tentando fazer com este artigo e posteriormente farei em vídeo) em vez de ir contra manipulações específicas, e para podermos fazer isso é fundamental não cairmos na armadilha de também nos utilizarmos de fake news. Outra tática, principalmente se são pessoas próximas como amigos e familiares, é escutar as pessoas e aos poucos fazer o interlocutor perceber por si próprio as contradições do discurso que está reproduzindo.

O terceiro passo é se concentrar em combater os efeitos da propaganda e não a propaganda em si. A campanha do Bolsonaro, por exemplo, fala em sair da ONU, que seria uma organização “comunista”. Em vez de refutar diretamente esta proposta (e acabar transmitindo a falsa mensagem de que a ONU ser comunista é uma opinião que você simplesmente discorda), podemos partir para a ofensiva, reunir esforços para fortalecer os laços das autoridades públicas com a organização e criar campanhas explicando o que é a Organização das Nações Unidas, os países que fazem parte e algumas de suas ações que inclusive impactam positiva e diretamente a vida de milhares de brasileiros.

Em outras palavras, devemos sim criar um Jato de Verdades, mas não devemos direcioná-lo diretamente para o Jato de Mentiras. Em vez disso, precisamos apontar o nosso fluxo para os lados, e tentar empurrar a audiência para direções mais produtivas.

Essa metáfora e essa mentalidade nos levam ao quarto passo: precisamos competir! Produzir conteúdo de qualidade e em quantidade, e pautar o debate público de modo ativo (como foi dito no passo 2). Temos muitos recursos para informar, influenciar e inspirar o público. É fundamental entrarmos nesta guerra contra a desinformação.

O quinto e último passo é usar meios técnicos e legais para desligar (ou diminuir) o fluxo. Se o Jato de Mentiras está desrespeitando leis brasileiras (que pune injúria, difamação etc), causando uma escalada na violência e, de maneira objetiva, afetando a nossa democracia tão duramente conquistada, não podemos agir como se fossem simples mentiras. Se tirar páginas do ar é quase inútil, devido ao enorme volume e à multiplicidade de canais,  responsabilizar criminalmente parlamentares que espalham publicamente fake news (em vez de só pedir pra tirar do ar) e fazer parcerias com provedores de internet e/ou empresas para desativar robôs e impedir conteúdo malicioso vindo de determinados países, por exemplo, poderia diminuir o volume e o impacto da propaganda. Estamos atrasados, mas ainda há tempo.

Essas são algumas soluções que temos – até agora. Como a técnica de propaganda é nova, possui características únicas e está sendo utilizado neste exato momento, ainda não existem respostas certas. O primeiro passo, contudo, é sempre entender a realidade em que estamos para então transformá-la (parafraseando famosa frase atribuída a Luis Carlos Prestes).

Nós, profissionais da comunicação ou não, militantes ou não, precisamos mais do que nunca disputar a narrativa dos fatos e enfrentar esta falsa realidade que está sendo criada. Com muita empatia e paciência conseguiremos reverter a situação.

Ainda há muita esperança e muito trabalho a ser feito. Até lá!

Sobre o autor

Thiago Vilela

Graduado em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), estudei Belas Artes na Universidade do Porto (Portugal) e Artes Gráficas na RedZero (Full Sail University). Trabalhei como Assessor de Imprensa e Editor de Vídeos na Comissão Nacional da Verdade (CNV) e hoje sou Assessor de Imprensa na Câmara dos Deputados.

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