O Escritório de David Clark (foto) no campus do MIT fica no topo de uma torre que parece uma coluna de alumínio retorcido. A placa em sua porta diz “Albus Dumbledore”. E, como o líder do mundo de feiticeiros de Harry Potter, Clark conhece os segredos da Internet desde o seu começo.

“Nós claramente não pudemos antecipar quão grande isso iria se tornar”, disse Clark. “Sempre que eu volto a ler as coisas que eu escrevi ou outros no grupo escreveram sobre planejar o futuro, nós consistentemente subestimamos o que iria acontecer.”

Clark e o professor de Harvard Yochai Benkler, um dos maiores especialistas legais que moldaram o desenvolvimento da Internet,  registraram um aviso em artigos acadêmicos conjuntos que publicaram na revista “American Academy of Arts and Sciences”. Mais de três décadas depois que a rede de comunicações mundial nasceu, Clark e Benkler afirmam que eles estão profundamente preocupados que a Internet esteja caminhando em uma direção perigosa nunca pretendida por seus fundadores.

Olhando para trás, Clark pondera se ele e outros fundadores deveriam ter deixado orientações sobre como a Internet deveria crescer.

“Não restrições, não regras, mas orientações, conselho – como, não seja estúpido” – diz ele.

Como está, Clark acredita que a Internet está andando com más companhias, de certa forma. A maior parte das pessoas agora acessa a Internet através de um de seus amigos corporativos – como Google, Facebook e Apple. Como guardiães, essas empresas possuem poder – informação sobre nossas vidas cotidianas que os ajuda a nos vender coisas.

Clark diz que pessoas precisam lembrar que ele e outros desenvolveram a Internet para que ninguém precisasse de um guardião. Ela supostamente deveria ser uma idealística sociedade de iguais, onde cada usuário tem a mesma quantidade de poder.

IMPOSSÍVEL?

“Uma das mais engraçadas observações das primeira uma ou duas décadas da Internet Pública é que as coisas que eram impossíveis se tornaram possíveis”, afirma Benkler, que começou estudando a Internet no começo de 1990.

Naquela época, Benkler estava animado com a maneira que ela desbancava velhas estruturas de poder, como a grande mídia. Na internet, qualquer um poderia mandar um email ou postar um vídeo sem pedir permissão. Ao mesmo tempo, Benkler estava no outro extremo da cidade onde Clark estava, estudando lei de propriedades como um estudante de Harvard.

“Eu estava estudando a lei de terras e propriedades (Homestead Act) de 1862”, diz ele. “É sério!”

Benkler percebeu que a Internet era como uma nova propriedade de Lousiana – uma grande porção de uma nova propriedade aberta para grileiros aventureiros reclamarem para si.

Então ele fez um desvio. Usando a Lei de Propriedade como um guia, Benkler ajudou a criar um ambiente legal que protegeu a Internet de ser engolida e reivindicada por corporações. Ai então vieram os smartphones. E Steve Jobs criou o Iphone.

“Eu acho que há pouca dúvida que Steve Jobs em particular era alguém que tinha uma visão de uma experiência controlada que via consumidores como pessoas que precisavam de um ambiente bem controlado e bem estruturado para prosperarem”, afirma Benkler. “Isso era parte de seu gênio e essa era parte do seu perigo”

Benkler estava surpreso até que ponto as pessoas estavam dispostas a desistir de sua privacidade. Isso é o que elas estavam fazendo, afirma ele, ao usar celulares com aplicativos como guardiões para a Internet. Guardiões que coletam informação e a usam para incitar pessoas a fazer coisas.

“Eu talvez escolha comprar esse conjunto de coisas, ir para esse grupo de eventos, olhar para esse grupo de notícias da imprensa, mas de qualquer forma essa é a direção que acabei sendo direcionado a partir dessas interações diárias que eu nem sequer percebi”, afirma Benkler. “Olhe para seis meses a partir de agora e terá um novo eu. E o novo eu é parcialmente eu, mas também é o eu que essas empresas queriam para mim. Isso é o que eu vejo como uma verdadeira ameaça”.

Benkler quer que as pessoas se protejam contra essa ameaça ao serem vigilantes e críticas. Eles diz que elas precisam se identificar por meio de múltiplos usuários, navegar a internet de maneira privada e usar software grátis e aberto, como Firefox.

Clark sugere que o publico precisa financiar um novo grupo de web designers, como o grupo que desenvolveu a Internet – mas dessa vez eles estariam desenvolvendo coisas como aplicativos para smartphones que não coletam dados.

“Eu acredito que essa questão é sobre se nós queremos deixar a Internet para seja lá quem o setor privado escolher fazer ou se nós queremos tomar o controle sobre ele”, afirma ele. “Eu acredito que é suficientemente importante que nós tomemos controle sobre isso”.

Texto publicado originalmente em WGBHNews.org. Tradução do Partido Pirata.