André tinha três anos. Priscila, dois. O ano era 1968. Mês de dezembro, 13, dia da promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5). A casa onde moravam, em Pariconha, interior de Alagoas, foi cercada. Foram acordados por gritos e pancadas nas portas e janelas. A pontapés e golpes de fuzis, soldados arrombaram a porta. Encontraram duas mulheres, Maria Auxiliadora da Cunha Arantes e Rosemary Reis Teixeira, ambas militantes da organização Ação Popular (AP), de resistência à ditadura civil-militar. Junto com elas, seus filhos: André e Priscila, filhos de Maria Auxiliadora. E Rita, filha de Rosemary, aos cinco.

“Hoje eu diria que foi um filme de terror”,
conta Rita de Cássia, funcionária pública que vive em Goiás.

Mães e filhos foram presos e ficaram detidos por cinco meses. Passaram pelo Dops de Maceió (AL), pela Cadeia Pública, pela Escola de Aprendizes de Marinheiros e pelo Hospital da Polícia Militar. No pátio do hospital, em meio ao lixo, ratos enormes circulavam por entre pernas e braços de gesso, curativos, caixas usadas. Para atenuar a situação diante das crianças, as mães apelidaram os ratos de Jerry [personagem de animação da série estadunidense Tom & Jerry].

Certa vez, na Escola de Aprendizes de Marinheiros, onde estava presa, Maria Auxiliadora ouviu o seguinte do oficial do dia: “Estive conversando com minha esposa e como não temos filhos, resolvi pedir que a senhora me dê seu filho. Podemos criá-lo muito bem. Olhe bem para a senhora. Que futuro a senhora tem? Seu marido está preso, a senhora está presa, ninguém da sua família apareceu, não vai ter condição nenhuma de criar essa criança”. Hoje, 46 anos depois, André é doutorando em ciências do desporto, professor universitário e funcionário do Ministério do Esporte.

“Bebê branco”

Em junho de 2009, Lia Cecília viu uma matéria num jornal cujo título dizia “Crianças sequestradas na guerrilha do Araguaia”, onde falava-se da existência de um “bebê branco” que poderia ser filho de um guerrilheiro, que teria sido sequestrado pelas Forças Armadas e entregue à adoção. Embora soubesse desde os 9 anos de idade que era filha adotiva, nunca soube quem eram seus pais biológicos. Adotada por uma família local, a história que ouvira desde a infância era que, quando bebê, em 1974, fora deixada por um delegado e um soldado num orfanato de Belém (PA), com o corpo cheio de picadas de inseto.

Foi então que, aos 35 anos, instigada pela matéria sobre o “bebê branco”, procurou o jornal, que a colocou em contato com Mercês Castro, irmã de Antônio Teodoro de Castro, guerrilheiro do Araguaia desaparecido em 1974. Mercês, que desde o desaparecimento do seu irmão empreende uma incansável luta para resgatar a história e o corpo de seu irmão, ficou sabendo da existência de uma filha de Antônio Teodoro. Após exames de DNA, ficou comprovado que Lia é filha do guerrilheiro, que usava o condinome de Raul. “Eu sou a prova de que mesmo na guerra existiu um grande amor”, afirma Lia.

44 depoimentos

Histórias como a de Lia, André, Priscila e Rita e outras 40 crianças estão reunidas no livro “Infância Roubada– Crianças Atingidas pela Ditadura Militar no Brasil” (disponível gratuitamente no site da Assembléia Legislativa, clique aqui para baixar ou confira abaixo a versão online), produzido pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”.

O livro reúne 44 testemunhos de filhos de presos políticos, perseguidos, assassinados e desaparecidos durante a ditadura civil-militar (1964-1985) no Brasil. Há, também, depoimentos das mães das crianças atingidas, com impressões sobre como viram a violência a qual seus filhos foram vitimados.

Cada testemunho é acompanhado, ainda, de fotografias, de acervo familiar e arquivos públicos, com o objetivo de resgatar a memória das famílias e a contextualizar o momento histórico, época em que crianças eram fotografadas e fichadas pelos órgãos de repressão. Há casos de crianças que, além de fichadas como “subversivos” e “terroristas”, foram banidas do país. Como Ernesto Carlos Dias do Nascimento, com dois anos; Zuleide Aparecida do Nascimento, quatro; Luis Carlos Max do Nascimento, seis, e Samuel Ferreira, nove; que foram banidos do país em 15 de junho de 1970, junto com 40 militantes políticos acusados de terrorismo. O decreto com o banimento foi assinado pelo então presidente Emílio Médici e pelo ministro da Justiça Alfredo Buzaid.

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Confira, abaixo, a publicação Infância Roubada

A publicação da Comissão da Verdade, presidida pelo deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP), é resultado de um ciclo de audiências públicas realizado em 2013, com o objetivo de jogar luz e dar visibilidade às violências cometidas contra crianças durante a ditadura. Ainda não se tem dimensão do enorme espectro de abusos aos quais foram submetidos. As histórias colhidas na série de audiências eram, até então, em sua maioria, inéditas.

Sequestro e adoção

São lembranças de tortura, humilhação, de dor, de desamparo, de exílio, vazio, solidão e medo. Há casos de sequestro, de adoção e de  ameaças de adoção, de banimento, de nascimento em cativeiro, de fetos torturados ainda no ventre de suas mães. Alguns tiveram que viver na clandestinidade, afastados dos pais, com nomes trocados.

Prova de que esse tema é ainda uma ferida aberta para as vítimas, na semana de audiências, alguns convidados, mesmo com presença confirmada, não conseguiram comparecer. Alguns só aceitaram contar sua história por meio de entrevista, ou em testemunhos escritos. Outros preferiram que suas histórias não fossem publicadas. São homens e mulheres de 40, 50, 60 anos que ainda têm dificuldades de falar no assunto.

O livro da Comissão é lançado num momento bastante oportuno, em que um setor da sociedade sai às ruas para pedir a volta da ditadura militar por meio de uma intervenção militar. “Infância Roubada” tem a tarefa de ajudar a reiterar o nível de crueldade e abrangência das vítimas da repressão do regime militar, que vão muito além da resistência política e armada.

Capítulo especial

As crianças e adolescentes merecem um capítulo especial na narrativa desse período histórico. Se nos países vizinhos, como Argentina e Uruguai, sequestros e doações de bebês para as famílias de seus algozes, como outras práticas cometidas contra a infância são fatos bastante conhecidos, aqui, ainda engatinhamos na reconstrução da memória dessa categoria de vítimas. “Se o inventário de violações de direitos humanos que nos foi legado do regime de 1964 é extenso e profundo, fato é que esse capítulo das violências contra crianças e adolescentes é uma das faces mais perversas desse poder repressor. São crimes contra a humanidade, contra incapazes que foram afetados no momento mais delicado de sua existência: a infância. São, portanto, crimes que devem ser apurados com a devida punição dos responsáveis”, diz, na apresentação do livro,  Adriano Diogo, presidente da “Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva”.

Embora os 44 testemunhos deste livro representem apenas uma pequena amostra do universo de crianças atingidas pela violência, eles pretendem cumprir a missão de ampliar e dar a visibilidade ao extenso leque de afetados pelo terrorismo de Estado do regime de 1964 e dar mais um passo a caminho da memória, verdade e justiça.

Por Tatiana Merlino, jornalista da Ponte, editora e organizadora do livro “Infância Roubada”.