Passados exatos 175 dias do brutal assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, o senador argentino Pino Solanas concedeu a Marielle Franco um Diploma de Honra em “reconhecimento por sua extraordinária valentia e compromisso na luta pelos Direitos Humanos” e também “por sua valiosa prática da ‘política com afeto’, seu maior legado”. Monica Benício, viúva de Marielle, esteve presente em Buenos Aires para receber a homenagem póstuma em sessão no Congresso. Crime vai completar seis meses em setembro sem solução.

Por Olavo Barros, especial para Ponte.

O tributo integra o circuito de atividades do evento “Diálogos de Resistência – Justiça para Marielle Franco”, que acontece entre 5 e 9 de setembro em Buenos Aires, e foi organizado pelo Coletivo Passarinho em parceria com Ni Una Menos, Seamos Libres, CELS (Centro de Estudos Legais e Sociais), La Poderosa, Columna Orgullo en Lucha y La Ría Feminista. Representantes das entidades organizadoras e convidados participaram de um painel de falas em honra ao legado de Marielle.

Compondo a mesa principal, além de Monica Benício e do senador Pino Solanas, estiveram presentes Nora Cortiñas, cofundadora do movimento por memória, verdade e justiça dos filhos desaparecidos na Ditadura Militar argentina, Mães de Maio, e o prêmio Nobel da Paz em 1980, Adolfo Pérez Esquivel.

“Não devemos deixar avançar nem um pouco os processos repressivos que vem avançando sobre a América Latina. As vítimas sempre são os militantes sociais”, afirmou o senador Solanas em seu discurso de abertura.

Diploma de Honra para Marielle Franco foi concedido por senador Pino Solanas | Foto: Olavo Barros/Ponte Jornalismo

Diploma de Honra para Marielle Franco foi concedido por senador Pino Solanas | Foto: Olavo Barros/Ponte Jornalismo

“A Marielle, quiseram silenciá-la, mas não puderam; quiseram meter medo e não puderam. Marielle se multiplicou em milhões de vozes em todo mundo”, afirmou Esquivel. “Ela e tantas outras mulheres deram sua vida para dar vida. São sementes que caíram em terra fértil”.

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Sob fortes aplausos, Nora Cortiñas discursou. “Por isso que seguimos lutando: porque temos esse afeto permanente. O tempo não vai ser suficiente para fazer justiça, mas vai ser o bastante para fazer memória. E esse ato, e outros, são a memória que necessitamos”.

Tão emocionada quanto firme, a fala de Mônica encerrou o painel. “Um dos meus pedidos [para vir a Argentina] foi ter formação política com vocês, porque vocês, muito melhor do que o Brasil, têm não só o conhecimento da dor, mas da resistência. Estou aqui para que a gente não tenha outras Marielles no sentido da barbárie, mas tenha muitas outras Marielles no sentido da luta e da resistência”.

“Marielle carregava no próprio corpo todas as pautas que defendia: mulher, negra, favelada, lésbica. O assassinato da Marielle foi uma tentativa – tentativa! – de nos silenciar, de nos fazer menores, de fazer com que a carne negra fosse novamente ‘a mais barata do mercado’, de colocar a população LGBT nas páginas dos jornais onde ela está acostumada, que são as páginas de sangue. Mas, como a Marielle disse, ela não será interrompida. Nem ela e nenhuma outra mulher”, disse a viúva de Marielle, Mônica Benicio.

E finaliza com o que poderia ser um pequeno poema: “Da dor, nasceu um sentimento potente. Marielle, presente!”