Select Page

Grupo de apoio a LGBTs brasileiros em Portugal lança manifesto

por | nov 15, 2018 | PLACEBO | 0 Comentários

Portugal vive nos últimos anos um aumento crescente no número de imigrantes, e os brasileiros fazem parte deste movimento.

Seja pela facilidade linguística, acordos de cooperação (validação de diploma facilitada, por exemplo) e mesmo algumas políticas do próprio governo de incentivo a concessão de vistos para estrangeiros, há vários motivos para pensar em Portugal como bom lugar para um brasileiro morar.

E se você é LGBT, Constança Pessoa*, brasileira que mora em Portugal desde 2009, lista mais uma razão para se mudar: se proteger do Governo Bolsonaro.

Pessoa é fundadora de um grupo de apoio a LGBTs brasileiros em Portugal, e tem auxiliado pessoas que queiram sair do Brasil em decorrência do resultado das últimas eleições.

Nas próximas semanas, em parceria com essa equipe, algumas das informações que têm sido repassadas no grupo vão ser publicadas aqui no site, para chegar a mais pessoas. O grupo, por segurança, está secreto no Facebook, mas você pode entrar em contato por email (no final da página).

Abaixo, confira o manifesto de lançamento do grupo.

*Constança Pessoa e todos os outros nomes citados no manifesto são pseudônimos.

“O amor
que ousa
dizer o nome”
Oscar Wilde**

Com aspectos e medidas que se assemelham ao fascismo, como discurso de ódio declarado aos homossexuais e a outras minorias, em nome de um conceito superior de pátria e família, Jair Bolsonaro, militar da reserva, teve 55,13% dos votos válidos, sendo eleito presidente do Brasil. Um candidato da extrema direita que chega ao poder com medidas que visam, dentre outras coisas, o armamento civil, o combate ao fictício “Kit Gay”, corte de direitos trabalhistas e privatizações. O presidente ainda não tomou posse, mas já é possível sentir na pele os efeitos de seu desastroso discurso político. Para entender melhor o que me proponho fazer com este artigo, por favor, preste atenção nos eventos que se seguem.

Ano 1895, Grã Bretanha

Oscar Wilde, escritor e dramaturgo britânico, é preso após uma decisão judicial motivada por um processo movido por ele contra o pai de seu amante, Marquês de Queensberry. O escritor entrou na justiça contra o Marquês que o havia acusado de sodomia, após descobrir a relação que o escritor possuía com seu filho, Lorde Alfred Douglas. O escritor não imaginava que sairia réu da própria ação por ser homossexual.

Ano 1933-1945, Alemanha

Para alguns pensadores da época, como Máximo Gorki, a homossexualidade era “a ruína dos jovens”. Os homossexuais eram equiparados a criminosos, bandidos, traidores. Em 1934, as relações íntimas entre indivíduos do sexo masculino já eram puníveis com prisão de 3 a 8 anos, ser homossexual passou a ser crime.

Berlim, embora uma cidade conhecida pela liberdade homossexual e por questões humanitárias, tornou-se um lugar onde os homossexuais eram perseguidos, bares e cafés eram invadidos por guardas da Gestapo. Com a vitória do Partido Nazista, passou-se para a criação de campos de concentração, os primeiros foram instituídos em 1933. Nesses campos de concentração, os homossexuais eram marcados com um triângulo rosa sobre a manga da camisa ou sobre o peito, essa marcação os distinguia dos demais.

O sistema nazista, temia um suposto “contágio gay”, Hitler acreditava que o comportamento homossexual era degenerativo e comprometia o “caráter masculino” da nação ariana. Os gays eram denunciados como inimigos do Estado, por ameaçarem também o crescimento da população. Além disso, o sistema nazista, pela figura de Henrich Himmler, um dos principais líderes do partido Nazi, chegou a afirmar que os homossexuais eram uma raça secundária e, partindo disso, buscava encontrar, por meio de experimentos científicos, qualquer indício de que a homossexualidade seria uma deficiência hereditária.

Gays e lésbicas foram inseridos nesses campos sem sequer haver julgamento. Dez anos depois, após anos de tortura, experimentos médicos, perseguições e morte, em 1943, Himmler autorizou a castração de homossexuais, causando ainda a morte de muitos em decorrência da própria cirurgia, os que sobreviviam eram enviados para realizar os trabalhos mais pesados em campos de trabalho forçado. Não se sabe ao certo quantos homossexuais morreram durante este tempo, mas é sabido que eles foram um dos grupos mais perseguidos pelo regime nazi.

Ano 1969, Estados Unidos

Uma rebelião se inicia nas primeiras horas do dia 28 de junho de 1969, em Stonewall Inn, Greenwich Village. Gays, lésbicas, travestis e drag queens enfrentam policiais durante alguns dias, estas ações ocorreram em resposta ao modo autoritário e arbitrário usado pelos policiais, que constantemente faziam batidas e revistas aos bares gays (Stonewall Inn), geralmente humilhando quem lá estivesse e/ou prendendo pessoas sem razão que justificasse. Neste dia, alguns travestis, que se encontravam no bar, foram presos sob a alegação de falta de licença para vender bebidas e, diferentemente do que acontecia sempre, as pessoas resolveram resistir. Esta atitude de resistência deu origem a uma série de motins e, posteriormente, manifestos por igualdade de direitos.

Essa multidão de gays, lésbicas, travestis e drag queens começou a atirar pedras e garrafas em direção aos policiais, houve uma tentativa de atear fogo no bar, os policiais se abrigaram dentro do próprio Stonewall. Após alguns dias de negociação, os policiais recuaram e este acontecimento deu origem ao que conhecemos como ativismo gay contemporâneo. Por isso, comemora-se o Dia Internacional do Orgulho LGBT em 28 de junho.

Ano 1976, Brasil

Morre aos 76 anos Madame Satã, transformista e ícone negro da resistência LGBT brasileira. Personagem criado pelo pernambucano João Francisco do Santos, homossexual assumido, que teve sua vida marcada por passar longos períodos em cárcere, especialmente em decorrência de seu comportamento insubmisso e por matar um policial (absolvido por ter sido em legítima defesa). Apresentava-se, em plena ditadura militar, travestido de mulher, suas performances aconteciam em cabarés na Lapa, Rio de Janeiro.

Jornais como Lampião da Esquina (1978) e ChanacomChana (1981), respectivamente gay e lésbico, foram de extrema importância na divulgação da violência sofrida pela comunidade LGBT e são considerados pioneiros no registro da luta por direitos LGBTs no Brasil.

Ano 2017, Brasil

Após 38 anos coletando dados e estatísticas sobre assassinatos de homossexuais e transgêneros, o GGB (Grupo Gay da Bahia) registrou um aumento de 30% nos homicídios de pessoas LGBTs. No Brasil, segundo levantamento emitido pelo O GLOBO, a cada 19 horas um homossexual é assassinado ou se suicida exclusivamente pelo fato de ser homossexual ou por ser vítima de LGBTfobia. O Brasil passa a ser campeão mundial neste tipo de crime.

 

Ano 2018, Brasil

“Estou em pânico constantemente por conta dos resultados das eleições, temo pela minha integridade física e mental. Está sendo extremamente difícil sair nas ruas, os olhares intimidadores, o julgamento e o ódio escancarado nos rostos das pessoas é estarrecedor!

Ser LGBT no Brasil tem sido algo de muita resistência, mas não sei até quando poderei aguentar. Sinto medo de sair de casa, tenho medo de sofrer agressões físicas porque psicológica já ocorre. Há intimidações há todo momento o outro se sente livre para nos humilhar, rechaçar a luz do dia. Situações que não ocorriam antigamente, mas que agora são frequentes e preocupantes”.

José

“Muitas das meninas trans, sem acolhimento familiar, escolar ou instrução e capacitação se vêm forçadas a ceder a prostituição algumas conseguem imigrar para a Europa, o que não significa uma melhora de vida diretamente, dado que esquemas para esse procedimento podem ser perigosos, e pouquíssimas outras seguem resistindo em território nacional, ocupando espaços, debatendo, se posicionando politicamente, realizando manifestos, coletivos ou individuais, artísticos ou políticos.

Minha situação pessoal me impede de encarar a possibilidade de imigração como uma alternativa de realidade palpável, uma vez que não possuo diploma superior (apenas Ensino Médio), nem renda fixa (saí do meu último trabalho formal a aproximadamente um ano). O cenário político atual me trouxe muita ansiedade e pessimismo quanto aos meus próximos passos. Não sinto segurança o suficiente para me lançar novamente no mercado de trabalho formal. temo pela minha segurança, desde o primeiro turno das eleições, mais de 50 casos foram registrados no Brasil de agressões a LGBTQ’s motivadas por discurso político”.

Bella, mulher trans

“Eu sempre tive o costume de andar com um spray de gengibre na mochila, ele é um spray de defesa pessoal parecido com o de pimenta, por medo de sofrer alguma agressão, ainda mais sendo Drag Queen, agora o medo aumentou, é claro.

As ondas de ódio estão enormes, meus amigos LGBTs não saem mais sozinhos por conta do medo, li em uma postagem que tem motoristas fazendo emboscada para agredir o carona no caso de ser um LGBT, presenciei o depoimento de uma amiga que é dona de uma boate, tomando medidas de segurança como colocar um muro na parte da boate que era aberta para fumantes e aumentar as seguranças por conta do medo, os seguranças agora acompanham os clientes da boate até táxi ou carro, e outras boates estão tomando as mesmas medidas, muitos estão com medo de sair na rua por conta de toda essa onda de ódio”.

Luna

“Nós estávamos secando nossa filhinha que tinha acabado de sair do mar, enquanto eu a secava meu marido recolhia cadeiras e guarda-sol. A todo tempo percebíamos olhares curiosos, o que já era comum quando íamos à praia. Seguimos para o carro e nossa filhinha deixou cair seu baldinho com brinquedos de praia. Parei com ela ao meu lado para recolher os brinquedos enquanto meu marido seguiu para o carro. Notei que dois caras que estavam sentados próximos me olhavam com uma expressão de raiva, e ali começou tudo: fui xingado pelos dois, logo em seguida, mais três caras apareceram dizendo “começa a correr veado, aqui não é teu lugar.

Abaixei minha cabeça, terminei de recolher os brinquedos e quando fui pegar minha filha no colo eles arremessaram uma garrafa long neck aos nossos pés (Não tenho certeza se o objetivo era nos acertar ou assustar, mas não acho que isso importe). Os cacos lançados fizeram um pequeno machucado na perna de minha filha. Eu a peguei no colo e corri para o carro. As agressões verbais continuaram intensas: “veado tem que apanhar para ser gente”, “veado não pode ter filho, devolve essa criança para mãe”.

João, Laura e Fábio

“Sou um rapaz gay, tenho 23 anos e vivo no nordeste do Brasil. O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo, mas no último mês as coisas pioraram com nunca e só tendem a piorar. A democracia brasileira é frágil, só tem 30 anos. Muitas pessoas acham que é exagero, mas o presidente eleito não apenas é fã da ditadura, ele quer trazer aquele período de volta. […] Passei a ter medo de sair na rua como nunca antes, porque agora saio de casa com a dúvida de que irei voltar. Não saio de casa sem um canivete para autodefesa, o que não é tão útil, já que os seguidores dele andam por aí com revólveres. A sensação que eu tenho é que estamos à beira de uma guerra civil, que irá explodir a qualquer momento.

Alguns grupos de resistência já estão tendo aulas de luta, de tiro, de guerrilha, para sobreviver ao mandato do presidente. Enquanto isso, ele fala em fuzilar, torturar e eliminar qualquer pessoa que se oponha contra ele. Enquanto os primeiros de nós já começam a ser mortos apenas por estar na rua, o que mais me dói é ver meus amigos sem esperança, pensando no suicídio. Esses dias ouvi de um amigo “Que escolha eu tenho? Ou eu me mato ou eles me matam quando eu pisar na rua!”.

Eduardo

“Eu e minha mulher Ana estamos desesperadas no momento, com muito medo de ficar no Brasil por conta de todas as tragédias que tem acontecido com os homossexuais, nesses dias de eleições motivado pelo discurso de ódio do atual presidente Jair Bolsonaro.

Ultimamente estamos saindo nas ruas, com muito receio do que possa nos acontecer, não estamos andando de mãos dadas e no ônibus sentamos uma do lado da outra sem muita aproximação com medo de sofrer algum ataque. E tudo está acontecendo de errado com a gente ultimamente. Recentemente, após a vitória de Bolsonaro, a tia da minha mulher que ela tinha como uma mãe, vendo as postagens dela no Facebook sobre ela ser contra a vitória de Bolsonaro por medo de retaliação contra os homossexuais, mandou mensagem no whatsapp da minha mulher, indignada sobre o posicionamento político dela nas redes sociais, e a partir daí a tia dela a chamou de desequilibrada, que a sociedade não a aceita, que não tem LGBTs na Bíblia, que não tínhamos que demonstrar nas ruas ou nas redes sociais que somos um casal porque isso é afronta e que tem vergonha de nós. Terminou falando que nos bloqueou no Facebook e que jamais nos aceitaria como um casal”.

Ana e Olívia

“Tenho um Salão de Beleza estabelecido no interior do estado de São Paulo e já tive clientes em minha cadeira de atendimento que foram expulsos de mercados dos seus bairros e ameaçados por eleitores do presidente eleito. A situação é muito grave mesmo, ao ponto de, muitas vezes, preferimos não sair de casa com medo. Ao almoçar em um shopping de nossa cidade, São José do Rio Preto, ficamos com medo da quantidade de ameaças sendo quase gritadas contra nós, Lgbts por um grupo de apoiadores do presidente eleito. Medo mesmo! E pior, medo por não sabermos se teremos qualquer ajuda legal contra essas ameaças ou se algo pior chegasse a acontecer. Triste demais.”

Fabiano

 

Resistência LGBTQ+

Eu, quando decidi escrever este artigo, não imaginava a quantidade de relatos que iria receber. Talvez por ingenuidade, talvez por querer acreditar que as coisas não estivessem tão ruins assim.

Partindo de tudo que foi falado, a questão que quero colocar com este texto é: qual seria o crime? Em todos os regimes autoritários a classe LGBTQ+ é uma das classes mais perseguidas, não só pelo governo, mas também pela sociedade. Insisto e pergunto: que crime é este que nos coloca numa situação tão vulnerável? Que nos leva para prisões, que nos mata em campos de concentração? Que crime é este que nos obriga a lutar para ter o direito de estar num bar? Que nos encarcera por não nos dobrarmos aos desmandos de uma classe privilegiada. Contra quem? Como uma pessoa pode ter sua vida sentenciada desde o seu nascimento, independentemente de qualquer coisa, por ser LGBT? A quem devemos procurar? Quem nos pode defender?

Somos filhos e filhas, somos mães e pais, irmãos e irmãs. É momento de nos juntarmos pelo direito de amar. Nosso crime sempre foi este – amar o que acham errado, ser o que não se pode nem se deve ser. Amamos demasiado, intensamente, a todas as pessoas, nas suas mais variadas formas e molduras, somos quem somos. Nós escolhemos viver isso. E não nos vamos calar.

Nós temos nome e ousamos dizer.

Estas palavras não se podem perder em meio a tantas outras sem propósito. Trate-as com a seriedade que elas merecem. Guarde-as para si. Envie-as a quem possa interessar. É urgente que você olhe por elas, que você se sinta por elas. Elas serão nosso primeiro passo, caminharemos juntos a partir de agora.

Grupo de Apoio

É inadmissível que nos calemos neste momento terrível, repetido tantas vezes. Esses relatos são consequência de um pedido feito num grupo de apoio a LGBTs brasileiros, em Portugal, criado em decorrência dos resultados das eleições e feito exclusivamente para LGBTs. O grupo conta, na sua organização, com o trabalho voluntário de algumas pessoas, maioritariamente LGBTs, que se disponibilizaram a ajudar, fornecendo informações, aqueles que, legalmente, optem por sair do Brasil e queiram viver em Portugal.

Nossa luta é antiga. Resistiremos.

Constança Pessoa
[email protected]

Fontes de consulta

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/08/06/Como-o-regime-nazista-tratou-homossexuais-e-o-que-a-Alemanha-está-fazendo-para-repará-los
https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/o-holocausto-gay
https://www.esquerda.net/dossier/batalha-de-stonewall-marco-do-movimento-lgbt/17046
https://www.sescsp.org.br/online/artigo/8698_MADAME+SATA
https://www.politize.com.br/lgbt-historia-movimento/

** Frase adaptada da frase “The love that dare not speak its name” atribuída a Lord Alfred Douglas, escrita no poema Two Loves, composto para Oscar Wilde.

O que achou da publicação?

avatar
1500
  Receber atualizações  
Me notifique