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O Lá – Sobre viver em quadrados

O Lá – Sobre viver em quadrados

Desde a última sexta (13/04) o teatro SESC Garagem abriga a temporada de “O Lá – sobre viver em quadrados”. A peça, apresentada pelo Núcleo Experimental em Movimento (NEM), está em cartaz até o dia 22. A peça encena a história de “Ela” e “Ele”. O espaço é comandado por um ser que prioriza pela ordem em seu próprio mundo. Este ator-narrador interage com a platéia e comanda as ações dos dois personagens, para que tudo siga em “ordem” e “progredindo”.

Os personagens são caracterizados como bonecos manequins que ganham vida e são controlados por este “comandante”. O mundo é representado através de caixas de papelão dispostas pelo palco e quadrados formados por fita adesiva. Os dois personagens só podem interagir dentro destes quadrados e não podem pisar na linha que divide um do outro. Abaixo, teaser do espetáculo:

Cativante

A narrativa cativa os espectadores, anulando qualquer possibilidade de distração. A composição do ambiente dialoga com o tema da peça. A sonoplastia é composta, na maioria das vezes, por sons feitos pelos próprios atores. Canções de fundo tocam quando o ator-narrador manda. Aliás, ele controla tudo e todos, incluindo os espectadores. Assim, não se surpreenda caso ele lhe proíba, por exemplo, de comer pipoca ou de colocar a perna direita sobre a esquerda.

A luz do ambiente ajuda o espectador a focar nos momentos que merecem mais atenção. A união dos efeitos visuais e sonoros auxilia o espectador a sentir a peça com mais intensidade, de maneira que a plateia fique ansiosa pelo próximo passo dos personagens e a próxima ação que será narrada.

A peça é voltada a Ela e Ele que vivem Aqui e estão sempre a um passo de chegarem . Chegar é a promessa do narrador a eles a todo tempo. Os personagens, entretanto, estão dentro de uma rotina monótona de acordar, dormir, levantar na hora exata, se preparar, pegar seu veículo até o trabalho e trabalhar de forma competitiva até conquistar uma promoção ou um novo cargo, se desgastando cada vez mais.

Crítica

A crítica da peça está relacionada ao controle dos corpos, de escolhas e ideias. O ator-narrador pode ser entendido como o sistema atual e os demais atores como representantes dos trabalhadores (nós). Essa crítica é feita de maneira hiperbólica no intuito de nos frustrar e nos fazer refletir o nosso cotidiano. De uma hora para a outra nos sentimos dentro de um sistema que nos faz acreditar que iremos chegar a um lugar melhor, Lá. Desde, é claro, que sedemos nossas necessidades pessoais de pensar, escolher, distrair etc.

A peça nos bate (psicologicamente) forte. Ao mesmo tempo que ela tem uma característica jocosa, sarcástica – no fundo sentimos a preocupação de onde estamos indo e até onde vamos chegar. Essa busca incessante pelo melhor, pela riqueza e principalmente pela “felicidade” nos faz cair o tempo todo na engrenagem do sistema.

A sensação que temos é de que se não obedecermos a esse sistema capitalista nunca poderemos alcançar nosso objetivo. Não há outro caminho e só esse sistema pode te oferecer isso, porque ele tem tudo, ele tem o dinheiro e o bem estar que “vão te proporcionar a felicidade”. Essa engrenagem nos diz como agir até em relacionamentos, como não demonstrar o que realmente sentimos, como não devemos ser nós mesmos. Se você demonstrar o que sente as pessoas vão pisar em você, vão rir de você, você vai ser fraco e sensível. Não chore. Não reclame, trabalhe. Seja workaholic e não confie em ninguém, não ajude os demais se não te derem algo em troca, são seus concorrentes.

Mudança

Ao decorrer do tempo a peça vai mudando seu tom. Ela e Ele começam a ver que quanto mais eles trabalham para chegar , em busca da promessa a ser alcançada, se sentem mais infelizes. A felicidade surge de pequenos momentos, inesperados, de interação. Ambos estão cada vez mais engendrados, insatisfeitos e no mesmo lugar. Nisto, a reação que eles têm diante desta situação controladora é surpreendente, pois começam a demonstrar coragem de desobedecer ao “ser superior”, que até então pensava que tinha o controle de tudo e todos.

Essa revolta afeta o ator-narrador que os comandam de maneira que há uma pane no sistema, e em seguida passamos a descobrir que há algo além ou acima deste “ser superior”. Assim Ela e Ele passam a fazer e a descobrir a novidade, algo que não podiam fazer quando estavam à mercê da linha tênue do quadrado entre Aqui e .

Esta cena mais uma vez nos nocauteia, dizendo o que nós já sabemos. Afirmando o que nós já temos consciência a partir do momento em que temos de ceder algo nesta vida. A peça reafirma o nosso sistema corrupto e a nossa falta de coragem de bater de frente com o sistema. Estamos vivendo um ciclo e passaremos esse ciclo adiante se não tomarmos a atitude de quebrá-lo. O ciclo da corrupção dos nossos sentimentos, da nossa dor, da alegria e da tristeza. Da nossa compatibilidade humana que chamamos de caridade, caridade porque não podemos demonstrar muito, só de vez em quando. Sendo que do contrário já devíamos ser seres mais HUMANOS de verdade, que não mede a intensidade de amor, companheirismo ou gentileza.

Exemplo

Devemos acolher o exemplo dos personagens Ela e Ele. Eles começaram como bonecos e fantoches mas terminaram mais humanos do que nós mesmos. Apenas pela coragem de existir e viver.

A peça é uma obra maravilhosa e continua em cartaz nesta sexta (20/04) e no final de semana. Vale a pena conferir!

Serviço

Apresentações às sextas, sábados e domingos, 20h, Teatro Sesc Garagem (913 sul). Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada) e podem ser comprados no local (mediante disponibilidade). Mais informações no Facebook: https://www.facebook.com/events/2040882006168347/

Além da obra principal, antes da apresentação sempre há uma Cena Curta, de até 15 minutos. Fui no dia da “Movimentos de um Ovo”, cena premiada pelo júri popular no Festival 1/4 de Cena edição 2017. Também recomendadíssimo.

Lá

Sobre o autor

Elizabeth França

Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e mestranda em Linguística na Universidade de Brasília (UnB), possuo experiência em revisão de trabalhos acadêmicos (artigos, TCCs, dissertações e teses) e aplicação das normas ABNT. Escrevo poemas e produzi um livro. Atualmente trabalho como redatora/revisora freelancer e dou aulas particulares.

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