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Violência eleitoral recrudesceu no segundo turno

Violência eleitoral recrudesceu no segundo turno

O segundo turno das eleições presidenciais seguiu a mesma tendência de violência contra eleitores, minorias, ativistas e as próprias instituições. Uma urna foi queimada, jovens apanharam na rua e foram xingados apenas por estar com camisetas ou adesivos de candidatos. Mas os casos registrados pela Pública ao longo de duas semanas mostram que a violência foi ainda mais brutal do que no primeiro turno – em especial na região Nordeste. Houve três casos de homicídio no Ceará, atualmente investigados pela polícia estadual, e um em São Paulo. Duas das vítimas eram apoiadores de Bolsonaro e dois agressores, partidários seus, acreditam testemunhas.

No total, nossa equipe conseguiu confirmar relatos de 65 agressões entre os dias 10 de outubro e 30 de outubro, culminando na data da votação do segundo turno, 28 de outubro. Os casos foram levantados em notícias da imprensa, em formulário no nosso site ou através do site Vítimas da Intolerância, um projeto da Open Knowledge Brasil e da Brasil.io. Nossa reportagem apurou os casos entrando em contato com vítimas, testemunhas, instituições ou a polícia. Casos como os relatados pelas celebridades Monica Iozzi e Bruna Marquezine não foram incluídos porque nossa equipe não conseguiu contato.

Quantidade de agressões registradas por dia

Quantidade de agressões

Assim como no primeiro turno, a quantidade de relatos de agressões cometidas por apoiadores de Bolsonaro é muito superior às de apoiadores do PT: foram 46, contra quatro agressões sofridas. Os demais 15 são casos de agressões sem causa definida. Os casos ocorreram em todo o país – foram 18 no Nordeste, 4 no Norte, 7 no Sul, 29 no Sudeste e 6 no Centro-Oeste. Houve ainda 1 relato de agressão no exterior. Outro destaque foram os reiterados relatos de negligência ou abuso policial – a Pública recebeu seis casos do tipo, quase 10% do total.

Motivação das agressões registradas

Motivações para as agressões

Diversos analistas reconheceram que a violência marcou a campanha eleitoral de 2018. Organizações da sociedade civil fizeram uma denúncia à Alta Comissária de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Michelle Bachelet, e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Por sua vez, a missão da Organização dos Estados Americanos (OEA), que acompanhou as eleições in loco, demonstrou preocupação com a polarização e a agressividade. “A violência é totalmente inaceitável em contextos eleitorais e democráticos. Violência gera violência”, descreve um informe preliminar apresentado em 29 de outubro.

Os discursos inflamados do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), e a hesitação em condenar peremptoriamente os ataques colaboraram para a violência se perpetuar. Ele chegou a dizer que não queria os votos “desse tipo de gente” e pediu providências às autoridades, mas depois passou a questionar a veracidade das notícias. No dia 21 de outubro, Bolsonaro afirmou a partidários que estavam na avenida Paulista, em São Paulo: “Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”, referindo-se à cúpula do PT. O partido, por sua vez, anunciou que prepara ações judiciais contra Bolsonaro por incitação e apologia ao crime.

Bolsonaro foi vítima de um ataque a faca em 6 de setembro que o deixou em estado grave, enquanto fazia campanha em Minas Gerais. O agressor, Adélio Bispo de Oliveira, confessou o crime e está preso.

Nordeste

No Nordeste, o ódio e a intolerância fizeram 18 vítimas no segundo turno das eleições. A divergência partidária teve também como pano de fundo outras motivações, como homofobia, misoginia e racismo. É o que relatam as vítimas ouvidas pela Pública.

Um dos casos mais chocantes vitimou justamente um apoiador de Bolsonaro.

No dia 11 de outubro, Valdenir Mendes Cirino, 36 anos, saiu pelo centro de Fortaleza, capital do Ceará, para garimpar livros mais baratos para revender. Do comércio informal de publicações escolares, ele tirava o sustento para a esposa e duas filhas. A costureira Maria Simone da Cunha Silva, 34 anos, esposa de Valdenir, esperou durante toda a tarde o marido voltar. “Geralmente ele chegava às 15h, mas naquele dia o celular só dava desligado”, relata.

Com os pés descalços, o corpo todo ferido e visíveis marcas de espancamento, o livreiro chegou à noite em casa, no bairro Quintino Cunha, no oeste da cidade. A esposa conta que Valdenir tinha dificuldade de falar e respirar, mas afirmou ter sido agredido por militantes de Fernando Haddad (PT) durante uma manifestação no centro. “Ele disse que estava passando pela avenida 13 de Maio, onde tem umas livrarias que vendiam exemplares usados e mais baratos. Então tinha uma manifestação e as pessoas ofereceram panfletos do Haddad, ele não aceitou. E argumentou que era eleitor de Bolsonaro. Foi aí que começou a violência.”

Simone, grávida de quatro meses, peregrinou por três unidades de saúde em busca de assistência médica para o marido. Entretanto, embora o livreiro já não conseguisse falar e um dos exames de imagem acusasse fratura nas costelas, ele recebeu alta. Oito dias depois Valdenir faleceu em casa, nos braços da esposa. “Hoje minha luta é por justiça. Eu quero que as pessoas que agrediram meu marido sejam identificadas e presas. E que o governo do estado e o município também respondam por negligência, pois eles foram omissos com Valdenir.”

Simone teve de recorrer à Defensoria Pública para garantir receber os prontuários e exames do marido, pois estes foram negados pelas unidades de saúde. Ela aguarda o laudo cadavérico e a investigação da polícia sobre a agressão.

Outro crime chocante, atualmente sob investigação, envolve a morte de um homem de 40 anos na comunidade Babilônia, no bairro Passaré, em Fortaleza, que teria sido morto na madrugada de 30 de outubro por ser eleitor de Bolsonaro. Segundo reportagem do jornal O Povo, um jovem confessou o crime, revelando que foi cometido por três pessoas, e a vítima teria sido degolada. A Secretaria de Segurança Pública não se pronunciou sobre o motivo do crime.

Também no Ceará, outro homicídio e um estupro estão sendo investigados pela polícia, e, segundo os familiares, as motivações foram partidárias. A Secretaria de Segurança Pública não deu mais detalhes das investigações.

O caso de violência sexual foi cometido contra uma estudante de psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor). O crime já vinha sendo anunciado desde o último dia 10 de outubro, quando a estudante negra foi abordada por um eleitor de Bolsonaro que, além de fazer injúrias raciais, a ameaçou de estupro. Segundo a presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unifor, Liz Filardi, a estudante procurou o DCE e a direção da universidade denunciando o ocorrido e pedindo ajuda. “Tudo começou com racismo. Por ela ser negra, ele a chamou de macaca, escrava, disse que a universidade não era lugar para ela e também ameaçou de estupro. Logo em seguida iniciaram as ameaças via WhatsApp, que também foram reportadas para a gente e para a Unifor. Mas infelizmente a violência ocorreu como prometida”, relata Liz.

No dia 25 de outubro, a estudante foi violentada sexualmente. A investigação da polícia procura identificar se o agressor é estudante da Unifor e se é a mesma pessoa do dia 10 de outubro. Tanto o DCE quanto a Unifor publicaram uma nota de repúdio ao ato.

Outra vítima de homicídio no Ceará era eleitor do PT. O jovem Charlione Lessa Albuquerque, 23 anos, foi assassinado no dia 27 de outubro enquanto participava de uma carreata pró-Haddad na cidade de Pacajus, cidade da região metropolitana de Fortaleza. Segundo amigos dos familiares, ele recebeu três disparos de arma de fogo enquanto dirigia o carro.

“O carro dele estava lá na frente da carreata, aí o cara chegou, emparelhou, atirou e fugiu. A mãe dele estava no carro e não sei como não morreu também”, relatou à reportagem Felipe – o nome é fictício – primo da mãe da vítima, que presenciou a cena. Policiais envolvidos na investigação chegaram a afirmar ao G1 que não houve motivação política no crime. Procurada pela Pública, a Secretaria de Segurança Pública disse que não comentaria o caso. Os parentes sustentam a tese de violência partidária.

No dia 24 de outubro, a Defensoria Pública do Ceará criou o Observatório de Intolerância Política e Ideológica para investigar denúncias de crimes de cunho político.

Na Bahia, um relato marcante vem de Jequié, no interior. No dia 10 de outubro, a presidente da Juventude do PT local, Paula Monique Oliveira, relata ter sofrido agressão física. Em entrevista à Pública, ela disse que já estava acostumada com ofensas na rua por andar com a camisa do partido. Mas, poucos dias após o primeiro turno, ela saiu de motocicleta da reunião na sede do PT de Jequié vestida com uma camisa com o escrito “Lula Livre”. No caminho para casa, percebeu uma moto com adesivo do Bolsonaro passando por ela com um motorista. “Um homem musculoso, forte, branco, alto e olhos claros. Estava usando a camisa do candidato do PSL. Quando ele chegou perto da minha moto, foi diminuindo a velocidade.”, diz ela.

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“Quando o fluxo de carros estava menor, ele jogou a moto dele contra a minha e o guidão da minha moto virou.” Paula conta que conseguiu se equilibrar, parou no acostamento e esperou que ele se afastasse para seguir. “Quando eu fui adiante para o caminho de casa, ele voltou pela contramão e empurrou a minha moto com o pé. E aí foi a pancada pior, que eu não esperava, acabei entortando meu pé, meu joelho acabou pegando no meio-fio.” Segundo Paula, o motorista chegou a levantar a perna “como se ele fosse me chutar novamente”, mas ela gritou e um frentista de um posto de gasolina ao lado se aproximou. O agressor fugiu. Paula registrou o boletim de ocorrência no dia seguinte.

Intolerância assombra universidades

Neste segundo turno, a intolerância atingiu também mais um território, as universidades. Flávia – o nome é fictício –, de 23 anos, é indígena e pertence à comunidade dos Tremembé no Ceará. Ela estuda psicologia em uma universidade privada em Fortaleza e afirma que teve sua família ameaçada durante as eleições 2018. “Eles disseram que quando Bolsonaro ganhasse iriam tocar fogo na minha comunidade”, relata. Ela também teve seu WhatsApp invadido por diversas mensagens ameaçadoras. “Eles me chamavam de vagabunda e diziam que eu tinha que morrer”, contou à reportagem. Em resposta, um grupo de apoio foi criado entre os universitários-alvo desse tipo de ameaça. “A ideia é mostrar que não estamos sozinhos, que tem alguém pela gente para ouvir e socorrer”, diz ela.

Houve diversos registros de intimidações na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Universidade Federal da Bahia (Ufba) e em algumas universidades privadas e públicas do Ceará.

Não existe um levantamento oficial feito pelas instituições, mas há diversos relatos de agressões. Segundo a presidente da União Nacional dos Estudantes no Ceará (UNE-CE), Quezia Gomes, a instituição tem procurado prestar apoio a esses estudantes, como escuta e grupos de socorro via WhatsApp. “O ambiente dentro das universidades está muito hostil. O que mais chega até nós são ameaças racistas e homofóbicas. Estudantes nos relatam que irão trancar o curso por medo de apanharem. Então a gente tenta mostrar para essas pessoas que elas não estão sozinhas, e isso de alguma forma já é um alento para elas”, explica.

Após o segundo turno, uma carta anônima circulou na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) listando o nome de 15 pessoas ameaçadas de serem “banidas” da instituição depois da posse do presidente eleito, em 2019. Todos os ameaçados pertencem ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH-UFPE), especificamente docentes e estudantes dos cursos de história e ciências sociais. A carta detalha que todas as pessoas nomeadas desenvolvem pesquisas e trabalham com o público LGBT, são “lésbicas, gays, prostitutas e partidários de esquerda”. Por esse motivo são chamados de “comunistas” e, de acordo com o autor ou autores da mensagem, não devem mais estar na UFPE. Em nota, a universidade repudiou os atos e informou que acionará o Ministério Público Federal e a Polícia Federal para apurar ameaças a alunos e professores.

Região Norte

Após uma rotina árdua de cobertura das eleições 2018, o jornalista Minervaldo Lopes, 31 anos, e três amigos foram para uma distribuidora de bebidas na zona norte de Boa Vista, capital de Roraima, comemorar a folga do dia seguinte. Por volta das 2 horas da manhã da sexta-feira, 12 de outubro, o jornalista foi até o carro buscar o carregador do celular quando duas pessoas o surpreenderam: “Quando Bolsonaro vencer, ele vai matar veado!”, gritaram.

“Eu mal pude acreditar no que escutei, meus amigos ficaram pálidos, e não soubemos o que fazer. Já os agressores entraram calmamente no carro deles como se nada tivesse ocorrido”, relata o jornalista. Minervaldo afirma que nunca pensou que isso pudesse acontecer com ele. “No dia seguinte refleti sobre o extremismo e até onde ele pode levar as pessoas. Se este tipo de situação tivesse evoluído para uma agressão física, talvez minha vida estivesse em risco agora.” Ele decidiu, no entanto, não prestar queixa na delegacia: “A maior parte das pessoas não encara esse tipo de agressão com seriedade, então seria outra violência que eu iria sofrer”.

Quantidade de agressões por região

Agressões

Em Roraima, a funcionária pública e sindicalista Antônia Pedrosa lembra que exercer a militância e levantar uma bandeira de esquerda no segundo turno se tornou um ato de coragem. “Fui xingada dos mais diversos nomes que você possa imaginar, sofri intimidação dentro de grupos de WhatsApp e até mesmo no trânsito, tudo pelo simples fato de expor minhas preferências políticas.”

Antônia é professora do estado e do município. A última agressão que sofreu foi em 11 de outubro, quando estava no trânsito, por volta das 18 horas, no centro de Boa Vista. Um homem branco de aproximadamente 30 anos emparelhou o carro com o dela e disse: “Vai para Cuba, desgraçada”. O carro da sindicalista tinha um adesivo de apoio a Fernando Haddad (PT), mas foi retirado por militantes de direita. “Foi muito difícil e doloroso todo esse processo. Fui chamada de louca e, por diversas vezes, me senti violada no meu direito de expressão.” Segundo a professora, ela já procurou uma assessoria jurídica e deverá entrar com processo contra os agressores.

No total, foram 4 casos de agressão na região Norte.

Sudeste

Houve 29 casos de agressões relacionadas à disputa eleitoral do segundo turno na região Sudeste registrados pela equipe da Pública.

No dia 16 de outubro, o largo do Arouche, região conhecida por reunir LGBTs no centro de São Paulo, foi palco de uma cena de horror. Uma travesti identificada pelo nome de Priscila foi morta a facadas após uma discussão no bar. Uma testemunha, moradora do local, afirmou ao site Ponte Jornalismo que o assassino gritava o nome do presidente eleito. “Estavam gritando, chamando de prostituta, vagabunda, agressões verbais que não lembro. E ouvi, sim, o nome de Bolsonaro nessa hora, de ‘Bolsonaro presidente’, essas coisas.”

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“É bem comum discussão aqui nessa região. Sempre tem um vidro quebrando, garrafa. Não é a primeira vez que acontece. O problema é que dessa vez estava bem alto. Eu abri a janela e consegui ver que tinha umas quatro ou cinco pessoas discutindo na frente do bar”, afirmou a testemunha, que pediu para não ser identificada pelos repórteres da Ponte.

O caso foi registrado no 3º DP e, de acordo com a nota lançada pela Secretaria de Segurança Pública, a Polícia Civil busca agora identificar a autoria do crime.

Uma semana depois, no dia 23 de outubro, na cidade de Assis, no interior de São Paulo, um galpão foi atacado com uma bomba durante uma aula de capoeira.

O professor Márcio Blanca conta que estava finalizando a aula quando ele e os alunos escutaram um barulho de explosão próximo à porta e vou fumaça tomando conta do local. “Depois da bomba eu fiquei um pouco atordoado com o barulho. E aí depois que fui entender com a arrancada do carro”, diz. “Foi aí que a gente se deu conta: ‘Nossa, alguém tacou uma bomba aqui’. Porque do lado de fora estava o meu carro e um outro carro com adesivo do Haddad.”

Márcio Blanca diz que moradores de rua que estavam nas proximidades do galpão informaram que o carro que jogou a bomba foi um Gol da cor preta. Ligaram para a Polícia Militar, que chegou logo depois. A polícia, no entanto, afirmou que não tinha o que fazer, segundo o capoeirista, “porque a gente não tinha a placa do carro e não tinha acertado ninguém”. Mesmo com a resposta negativa da PM, Márcio Blanca chegou a fazer o boletim de ocorrência no dia seguinte.

Seis dos casos ouvidos pela Pública foram marcados por relatos de abuso de autoridade ou negligência de policiais.

O caso mais grave é de um jovem que afirma ter sido agredido por um policial ao tentar registrar na delegacia uma violência eleitoral que ele tinha acabado de sofrer. O caso aconteceu na madrugada do dia 21 de outubro, no Flamengo, bairro da zona sul do Rio de Janeiro.

A primeira agressão sofrida pelo jovem, que preferiu não se identificar, ocorreu próximo da praça São Salvador, conhecido reduto da esquerda carioca. Ele estava a caminho de casa e tinha acabado de voltar de uma manifestação pró-Haddad que ocorria na Cinelândia, no centro do Rio. Foi abordado por um grupo de aproximadamente cinco pessoas, que começaram a gritar. “Eles diziam para mim: ‘Isso tudo vai acabar, essa palhaçada vai acabar, tem mais é que apanhar mesmo’”, conta o rapaz, que afirma não estar usando nenhum adesivo ou camiseta na hora, mas acredita ter sido identificado como eleitor de esquerda.

“Respondi às provocações e os caras foram para cima de mim. Me pegaram e me bateram.” Ele conta que ficou com lesões nos braços, a orelha e a cabeça inchada e dores no corpo. Mas o pior ainda estava por vir. O rapaz foi registrar a ocorrência junto com a namorada em uma delegacia no bairro da Lapa, após ter encontrado a delegacia mais próxima, em Botafogo, fechada.

“Chegando lá, os maus-tratos começaram na hora. Eu pedi para fazer um boletim de ocorrência porque sofri uma agressão e já começaram falando que lá eles não atendiam e que o lugar que tinha que atender era em Botafogo”, diz o rapaz. “Aí o cara começou a dizer: [a delegacia em Botafogo] não está fechada nada, você está mentindo. Eles ficaram rindo dizendo: ‘Ah, mas você não está machucado nada’. Eu briguei, tentando me defender. Aí o cara começou a ironizar falando: ‘Ah, mais o que você fez, você provocou, né? Você tem mais é que apanhar mesmo.”

Vendo que o policial não tinha interesse em atendê-lo, o jovem pediu que ele chamasse o responsável pela delegacia para dirigir a sua queixa a outro agente presente. “Ele falou: ‘Não tem delegado ou delegada nenhuma. Quem manda aqui sou eu’”, lembra. “Daí ele virou pra gente e falou: ‘Se você quer ajuda, pede para o Freixo [deputado estadual pelo Psol]’.”

O policial, segundo o jovem, passou a empurrá-los para fora da delegacia. “Eu virei para o cara e falei: ‘Qual a sua patente? Eu quero saber o seu nome para saber quem está fazendo isso’. E nisso ele foi empurrar a gente para porta de fora e eu bati no vidro da porta. Eu falei: ‘Cara, você está maluco?’. Daí, nisso o cara falou ‘Você está preso’ e me deu um mata-leão [golpe de estrangulamento]. Eu apaguei e só fui acordar dentro da cela, algemado”, diz. Segundo ele, a namorada continuou dentro da delegacia.

Minutos depois, ele acordou e foi informado de que só seria liberado se pedisse desculpas. “Eu falei que eu trabalhava com mídia e que isso ia estourar pra cima deles se não me soltassem. Eu acredito que senão eu teria ficado mais tempo lá dentro.”

Ele levou o seu caso para o advogado carioca Rodrigo Mondego, que tem auxiliado vítimas de violência eleitoral no Rio Janeiro. Outro relato acompanhado pelo advogado envolveu alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que estavam distribuindo panfletos pró-Haddad em Botafogo, também na zona sul.

A violência ocorreu na noite do dia 19 de outubro na praça Lauro Müller. Segundo o advogado, assim que chegou na praça para distribuir os panfletos, o grupo de aproximadamente seis alunos foi recebido com ameaças de morte. As vítimas relataram ao advogado que foram atacados por cerca de seis homens que pareciam ter em torno de 40 anos e teriam verbalizado apoio a Jair Bolsonaro. “Foi algo muito gratuito. Um [dos agressores] saiu do local para buscar uma barra de ferro. Com a barra de ferro começou a golpear um dos meninos”, conta o advogado.

Agressões registradas por estado

Por estado

Os golpes com barra de ferro atingiram a nuca e as costas de um estudante de história de 19 anos. A pancada foi tão forte que ele desmaiou, segundo o advogado. Ele já tinha levado um soco na cara que deixou o seu olho roxo e inchado. Os alunos procuraram auxílio em uma cabine da Policia Militar próxima ao local, mas, segundo o advogado, foram orientados pelos policiais a não prestar queixa na delegacia. “O policial falou: ‘Não faz não, deixa pra lá, é perigoso, não vai dar em nada e vocês vão se expor mais ainda”, diz Mondego.

As vítimas acabaram optando por não fazer um registro de ocorrência. “Eles ficaram com medo porque não confiam na segurança pública. Ficaram com medo de sofrer uma represália”, afirma o advogado.

A jornalista Elen Soares, de 53 anos, sentiu na pele o que é ser agredida por um policial e depois ser negligenciada na delegacia. Ela afirma que não conseguiu registrar um Boletim de Ocorrência depois de um coronel da PM ter cometido injúria racial contra ela, segundo sua narração.

No dia da votação do segundo turno, Elen saía da Escola Municipal Roma, em Copacabana, no Rio, quando se juntou a um grupo de pessoas desconhecidas em frente à zona da votação. Duas equipes de filmagem teriam pedido que as pessoas que portavam adesivos do Haddad se reunissem para fazer figuração para as câmeras. “Tinha um cara, o único ali, com um cartaz de apoio ao Bolsonaro que dizia mais ou menos: ‘O Haddad quer implantar a ditadura de Cuba e Venezuela aqui’. Vira e mexe ele vinha em direção ao grupo”, diz Elen.

A jornalista afirma que ela e o grupo ignoraram as provocações e continuaram conversando.

“Aí, quando fecharam o portão às 17 horas, ele saiu lá do outro lado, veio em direção ao nosso grupo. Interrompeu a nossa conversa e falou: ‘Ô, eu fui roubado, roubaram o meu celular’. Aí ele disse: ‘Isso é coisa de gente como você’, e apontou pra mim”, relata Elen. “Depois que aconteceu isso que eu prestei atenção: eu era a única preta do grupo”.

O grupo começou a manifestar repúdio contra a atitude do homem por ter feito uma afirmação racista. Um policial militar que estava fazendo a segurança do TRE abriu o portão da zona eleitoral e colocou o homem para dentro com o intuito de separá-lo do grupo. “Aí ele gritou lá de dentro que era coronel. Ainda ameaçou o pessoal que estava de fora brigando: ‘Ah, eu vou pegar um por um. Eu sou coronel e vou atrás de um por um”, diz a jornalista.

Elen manifestou o seu desejo de ir até a delegacia prestar queixa de injúria racial e pediu para o policial militar chamar uma viatura. Foi acompanhada de várias testemunhas que estavam no local. “Chegando lá, a gente ficou esperando. Eu achei esquisito ele ter sido ouvido primeiro. Fui eu que fui para registrar a queixa. O normal é que você registre a queixa e escute o outro”, lembra. No final, a queixa de injúria racial não foi registrada na delegacia e o coronel negou ter acusado Elen de roubar o seu celular.

Também no Rio de Janeiro, no dia 11 de outubro, Jaqueline Gomes de Jesus, uma militante transexual que foi a candidata a deputada estadual pelo PT, recebeu uma agressão na rua, no centro da cidade. “Eu estava resolvendo uma coisa no centro, na Cinelândia e na Evaristo da Veiga. Veio um homem segurando o celular e me deu uma forte cotovelada na altura no peito, quase pescoço, e isso me desequilibrou. Tive ajuda do pessoal da banca que estava perto. Uma senhora ficou comigo, me deu uma água, e aí o senhor que estava na banca também ficou assustado, e esse homem parou e ficou falando no celular. Eu não entendi nada na hora, depois que eu fui entender… Esse homem estava com um boné verde e amarelo do Brasil e camisa da seleção brasileira. Ele depois saiu”, lembra. Ela afirma que registrou um boletim de ocorrência. “A avaliação que a gente fez foi que ele me reconheceu como candidata. Foi numa região em que eu fiz muita campanha lá no centro.”

Região Sul: Polícia investiga briga em evento de motocross

No dia 21 de outubro, durante um evento de motocross no Parque de Eventos de Jaborá, uma cidade com 4 mil habitantes no interior do estado de Santa Catarina, o vereador Adalir Melanio de Santi (PT) foi acusado de ter agredido apoiadores do candidato Jair Bolsonaro à Presidência da República. A confusão foi parar na internet, com vídeo de acusação e de defesa.

Quem se queixa da agressão é Nerci Antonio Nicolli. No vídeo postado no YouTube, ele aparece ao lado de três crianças e de um carro com adesivos da campanha de Bolsonaro. Diz que Adalir e duas pessoas, identificadas como Jackson e Marciano, descolaram um dos adesivos do candidato do PSL do veículo, grudaram nas suas costas a propaganda e começaram a socá-lo e a chutá-lo. Depois quebraram um vidro lateral do veículo a pedradas. Estilhaços teriam ferido uma das crianças no braço.

Adalir nega que tenha havido essa briga. “Tudo versão dele”, defendeu-se, dizendo que o outro teve “um surto de griteiro”. “É tudo mentira, nem consegui chegar perto dele”, rebate. O bate-boca, entretanto, o parlamentar de Jaborá admite que houve.

A situação começou quando um organizador do 5º DVARP 2018 (Desafio Vale do Rio do Peixe de Velocross) usou o microfone do evento para manifestar apoio a Bolsonaro. Diz Adalir que gritou na direção dele, pois era um local público, no qual não poderia haver propaganda partidária. “Depois eles até se desculparam”, relata. Mas nesse ínterim, afirma que, “do outro lado da cerca”, Nicolli começou a xingá-lo.

Um inquérito policial foi aberto e os depoimentos de Adalir, Jackson e Marciano já foram tomados pela Polícia Civil, que manteve sigilo do seu teor.

“Ele [Adalir] veio atropelando todo mundo, estourando barreira de contenção. Por dois metros, se a organização não segura o carro, ele atropela essas crianças inocentes”, diz Nicolli no vídeo de acusação. Foram feitos exames de corpo de delito para aferir as denúncias. Ao noticiário local, ele disse que apoia Bolsonaro, mas que nunca tinha se envolvido em “provocações com outros partidos”.

À reportagem, o parlamentar negou qualquer manobra perigosa com seu próprio veículo. “Botei o carro no lugar da vistoria [das motos]”, diz. “Trabalhei doze anos com transporte escolar e turismo sem nenhuma queixa”, defendeu-se.

Os relatos mais comuns ouvidos pela reportagem na região Sul foram de hostilidades e ameaças verbais. É o exemplo do ocorrido à família da deputada estadual gaúcha Manuela D’Ávila, do PCdoB, que disputou a Presidência da República na chapa derrotada de Fernando Haddad (PT). Eles evitam falar sobre a agressão vivida pelo avô da candidata, Vinicius, na semana anterior ao segundo turno, na cidade de Jaguarão (RS). Ele foi hostilizado enquanto caminhava pela cidade, que tem 26,8 mil habitantes e faz divisa com o Uruguai.

Para a Pública, Manuela D’Ávila confirmou o ocorrido, sinalizando o motivo da discrição sobre o caso. “Meu avô vive numa cidade pequena, é conhecido que eu sou sua neta lá. Tem 90 anos, tem dificuldades de locomoção e os primeiros sinais de ausência de memória. Houve agressão verbal, enquanto ele se deslocava no centro da cidade”, disse.

Pelo Twitter, no dia 23 de outubro, ela disse ter sabido do caso por um amigo da família. “Meu pai não quis me deixar triste e não contou”, escreveu.

Há também relatos de ameaças ao Centro de Formação e Apoio a Lula, em Curitiba. Sobre esse episódio, a Pública conversou com Denise Veiga e Isabel Fernandes, respectivamente com 54 e 59 anos. Elas estavam em uma casa alugada pelo Partido dos Trabalhadores perto da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba – local em que está preso o ex-presidente Lula, condenado em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá. Segundo elas, se não fosse a polícia, na noite do dia 28 de outubro, a casa teria sido invadida. “Milhares de pessoas começaram a chegar na região depois das 19 horas”, relata Denise. “Estávamos em 50 pessoas ali dentro, com o portão fechado, e a polícia nos aconselhou a não sair. O muro era alto, então jogavam coisas no telhado, pedras, até rojões. Foi uma cena de terror.”

“Começaram a nos ofender, chamando de vagabundo, mortadela, petralhada. Vieram para cima do portão”, confirmou Isabel, que elogia a proteção oferecida na hora pelo policiamento. “Senão tinham arrombado.” Mas afirma que os policiais permitiram que o grupo se movimentasse livremente. “Por que não jogaram gás neles [para dispersar] igual já fizeram com a gente? Deixaram fazer o que quisessem”, acusou.

Outro caso ocorreu no município de Itapema, em Santa Catarina. Às 4h30 da manhã do domingo, dia 14 de outubro, o motorista de Uber Diego H. foi atender a uma solicitação de chamada em um restaurante. Entraram no carro dois homens e duas mulheres de aproximadamente 30 anos, segundo o motorista. Um dos homens entrou falando: “Veio uma mulher buscar a gente. Ah, não é uma mulher, é um homem de cabelo comprido”.

“Ele já entrou ofensivo, mas eles estavam bêbados, então não dei bola, fiquei na minha”, relata o motorista. Logo depois, Diego diz que o homem perguntou em quem ele iria votar. “Falei que meu voto é secreto, não preciso ficar dizendo em quem eu vou votar, porque eu vi que ele estava alterado. Aí ele disse: ‘Já vi que é um petista de merda, esses petistas veados, esses bichas’.” Diego disse que informou à mulher que estava no carona que, se o homem continuasse, os deixaria onde estavam. O homem parou com as ofensas, mas, quando chegou ao destino, saiu do carro e foi para a frente, pelo lado de fora. “Veio para me bater e começou a chutar o carro, aí o outro rapaz que estava junto segurou ele. Nessa que ele estava segurando, eu falei para ele, por impulso, que eu era policial civil. Aí ele pegou e desistiu. Fiquei bem nervoso com a situação toda”, recorda.

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Relato de agressão na região Sul

“Eu acho que poderia ser bem pior. O colega dele segurou, mas poderia ter sido bem pior’’, lamenta.

Diego H. registrou um boletim de ocorrência e entrou em contato com um advogado para saber como proceder. “Ele disse que é muito complicado porque eu não tenho testemunha nenhuma e eles teriam porque estavam em quatro. Então, era muito difícil eu provar alguma coisa porque não tinha lesão corporal. Ele chutou o carro, mas não chegou a danificar, deu umas amassadinhas. Mas não tem como provar que foi ele nem nada. A gente acabou deixando pra lá.”

Região Centro-Oeste: jornalista vira vítima por causa do sobrenome

Em Mato Grosso do Sul, uma repórter de um jornal de circulação estadual foi hostilizada na internet durante protestos contra Bolsonaro por eleitores do candidato no dia da apuração do segundo turno. O principal motivo para as agressões? A jornalista se chama Renata Volpe Haddad, mesmo sobrenome do então candidato petista à Presidência.

De acordo com a repórter, no entanto, não há nenhuma conexão familiar. “O sobrenome é do meu marido, e a família dele não tem nenhum grau de parentesco com a família de Fernando Haddad”, esclarece. Ela tem 30 anos.

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Destacada para a cobertura do resultado da votação no segundo turno, Renata compareceu à principal rua da capital, a avenida Afonso Pena, área em que partidários de Bolsonaro montaram telão e trio elétrico para celebrar. “Logo que cheguei, procurei a organização, mas não encontrei ninguém. Então fui entrevistar o público. Eu vi uma mulher, ela estava com a bandeira do Brasil em volta do corpo e com a camiseta do Bolsonaro. Eu a cumprimentei e ela já disse: ‘Imprensa marrom!’”.

Esse seria o cartão de visitas das agressões que Renata sofreria ao longo da apuração.

Segundo a repórter, a situação ficou mais grave quando identificaram o seu sobrenome no crachá do jornal. “Fui entrevistar outros manifestantes, e a pessoa que estava acompanhando uma entrevistada puxou meu crachá e disse: ‘Olha, ela é Haddad! Sai daqui! Vaza, você é petralha!’. E aí fiquei assustada, não imaginava que ia acontecer”, conta Renata.

A situação se repetiu várias vezes ao longo do dia. Para reduzir as hostilidades, ela deixou o crachá virado, sem revelar o sobrenome que atiçava os ânimos. Funcionou até o último momento. “Indo embora, tinha muita gente bebendo, e eu passei por um grupo… E não sei se viram meu crachá ou se foi pelo fato de eu ser mulher, mas puxaram meu cabelo, que no dia estava com rabo de cavalo.”

Ser agredida durante o desempenho da profissão, a ponto de ter de esconder o nome do crachá, desabafa Renata, foi uma das piores agressões que sofreu. “Fiquei muito chateada de ter que virar o crachá para atuar na minha área. Esse é o pior tipo de agressão que sofri”, disse, desiludida.

O caso veio a público quando a profissional recebeu apoio da Câmara Municipal de Campo Grande.

No total, foram 6 casos de violência na região Centro-Oeste registrados pela Pública.

Sobre o autor

Thiago Vilela

Graduado em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), estudei Belas Artes na Universidade do Porto (Portugal) e Artes Gráficas na RedZero (Full Sail University). Trabalhei como Assessor de Imprensa e Editor de Vídeos na Comissão Nacional da Verdade (CNV) e hoje sou Assessor de Imprensa na Câmara dos Deputados.

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