Reportagem originalmente publicada na Agência Pública, por Natália Viana. Se preferir, leia a versão original: http://apublica.org/2017/06/venezuela-sem-fake-news/
Na segunda-feira, 5 de junho, a Venezuela amanheceu com o mesmo presidente, Nicolas Maduro, como vem acontecendo desde que ele sucedeu Hugo Chávez, em 2013. Mais uma decepção para muitos dos manifestantes que têm lotado as ruas de diversas cidades do país nos últimos dois meses. Corriam boatos, de alcance multiplicado por correntes de WhatsApp, de que Maduro iria fugir do país no dia anterior. Até uma conhecida vidente previra sua fuga, dizia uma das mensagens. Era dito e certo.

Assim como nesse episódio, tudo o que acontece na Venezuela é cercado de desinformação e enevoado pelas fake news espalhadas por apoiadores do governo e da oposição. Na política venezuelana, tudo é espetáculo. Por isso, esqueça muito do que você leu por aí: a Venezuela não está vivendo uma catástrofe humanitária pela falta generalizada de alimentos; o governo de Nicolás Maduro não vai cair amanhã; a polícia nacional não está massacrando manifestantes a rodo nas ruas. Mas também não é verdade que tudo está bem e que as manifestações e a violência em torno delas são fruto de “terroristas” armados, como dizem os apoiadores do governo.

Nossa reportagem passou três semanas no país para ouvir o que dizem os venezuelanos e seus líderes. Logo no primeiro dia, já caímos numa marcha da oposição na zona leste de Caracas. Desde o começo de abril, elas têm sacudido a capital: a cada dois dias há um novo protesto massivo, e as ruas amanhecem como um cenário de guerra. Em todas as principais avenidas, há caminhões antidistúrbios ao lado de uma fileira de guardas da Polícia Nacional Bolivariana portando armas longas. Soldados do Exército com seus uniformes verde-oliva também ocupam esquinas e locais-chave para intimidar aqueles que vão protestar. Boa parte das principais avenidas de rápido acesso aos locais de encontro das marchas é interditada pelas forças do governo, impedindo o fluxo de manifestantes. As estações do metrô fecham. Algumas empresas liberam seus funcionários em horários alternativos para evitar o caos.

As marchas também têm a sua rotina: ali na Plaza Altamira, do bairro de classe média de mesmo nome, senhores e senhoras loiras com o característico boné com as cores da Venezuela conversam enquanto estudantes de diversas universidades, como a Universidade Central de Caracas, Universidade Metropolitana e a Universidade Santa María, trazem faixas e cartazes com os nomes das suas escolas e palavras de ordem contra o governo, para eles uma ditadura. Aos poucos, grupos de jovenzinhos, morenos, brancos, negros, começam e se organizar em rodas. Vão tirando das mochilas as suas “armas de guerra”: capacetes de moto, camisas negras que enrolam sobre o rosto, máscaras antigás, luvas grossas, escudos cuidadosamente talhados de madeira, enfeitados com palavras como “Coragem”, “Liberdade” e “Honra”. Os “black blocs” venezuelanos pedem que não sejam fotografados. Como os brasileiros, são muito jovens, entre 16 e 25 anos, e encontram nas marchas uma maneira de manifestar o desejo de mudança em seu país. Ali eles não quebram bancos nem lojas. Levam pedras e devolvem, quando podem, com suas luvas grossas, as bombas de gás lacrimogêneo atiradas pelas fileiras policiais; alguns atiram coquetéis molotov, ou explosivos caseiros. E são saudados como heróis pela oposição.

Quando a praça já está lotada, eles passam em fila indiana, o braço sobre os ombros do anterior, em direção à linha de frente, sob fortes aplausos. Algumas senhoras pedem para tirar fotos com eles. “São tão corajosos!”, exclama uma. Seu papel, ali, é tentar “empurrar” o cordão policial que invariavelmente interrompe a marcha quando ela se aproxima do centro da cidade, impedindo que os manifestantes penetrem na zona onde estão os prédios governamentais. “Não há um paro (greve) nacional na Venezuela. Há uns protestos, e esses protestos estão focalizados em guetos onde o governo deixa que protestem”, resume o diretor do Instituto Datanálisis, Luis Vicente León.

Nada disso é novidade na Venezuela; o chamado para “calle calle calle” (rua, rua, rua) tem sido repetido por diferentes líderes da oposição, com menor ou maior veemência, desde que Hugo Chávez foi eleito presidente em 1998. As ondas de protesto, boicote, lockouts são tantas que se perde a conta. Muitas delas tiveram apoio dos Estados Unidos, através de financiamentos da Agência Americana para Cooperação Internacional, a Usaid (saiba mais aqui e aqui). Desde a morte de Hugo Chávez em 2012, houve pelo menos três grandes ondas de protestos, seguindo sempre o mesmo roteiro. E, mesmo assim, quando se conversa com os manifestantes, eles garantem que desta vez será diferente. “Vamos seguir nas ruas, é todo um país que não quer continuar com esse regime”, diz Alejandro Ferrero, de 23 anos, sob um capacete com as cores da bandeira. Desde abril, mais de 2800 manifestantes foram detidos. Mais de 200 permanecem presos.

Continue lendo a excelente reportagem da Agência Pública: http://apublica.org/2017/06/venezuela-sem-fake-news/

 

MINHA OPINIÃO

É muito bom ver uma iniciativa como a da Agência Pública, que vai além do que a mídia tradicional diz. O regime venezuelano possui muitos pontos negativos, e apenas a queda do preço do petróleo não justifica o trágico quadro atual. De todo modo, como a reportagem revela, não se trata de um cenário de guerra. Há sim um confronto contra o governo – parcialmente financiado e fomentado por outros países, cabe ressaltar. Uma única morte por agentes de um governo é injustificável, ou mesmo prisões arbitrárias, ainda que nessas condições. Não podemos achar nada disso normal. Mas também não podemos pensar no presidente como um vilão de HQs. Ir além da notícia, é isto que a reportagem faz.