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100 textos e 1 ano depois

100 textos e 1 ano depois

Criado em 2008, OCOMPRIMIDO nasceu com o objetivo de produzir conteúdo inédito sobre assuntos que não saíam na imprensa comum. Uma espécie de pílula de informação (daí veio o nome ocomprimido). A ideia era que qualquer pessoa pudesse ler rapidamente e ficar bem informado sobre determinado tema, ainda que de maneira superficial. Para saber mais, clique aqui.

Apesar de nunca ter conseguido pagar as minhas contas ou concorrer em visualizações com grandes portais da internet, o blog conseguiu, acredito, ocupar certa relevância na blogosfera brasileira. Vencemos alguns prêmios, como o Blogbooks, em que ficamos entre os 10 mais votados da internet brasileira na categoria política; e o Topblogs, em que vencemos o título de melhor blog político do país (saiba mais sobre nossos prêmios). Tudo isso demonstra, para mim, que o objetivo do ocomprimido era de fato uma necessidade de grande parte dos internautas, e que estávamos conseguindo responder a estes anseios.

Segundo plano

Apesar de todo esse “sucesso”, devido a algumas prioridades pessoais e escolhas profissionais, acabei deixando o blog em segundo plano. Fui trabalhar na Comissão Nacional da Verdade, o que ocupava muuuito tempo; me formei em jornalismo na Universidade; fui morar sozinho; participei da fundação da Faz Bem, a Casa Vegana de Brasília, dentre outros motivos e projetos. Enfim, depois de alguns anos fora do ar (de 2015 a 2017, aproximadamente), resolvi, há pouco mais de um ano (20/06/17), revivê-lo. Ao invés de recuperar o conteúdo, preferi recomeçar tudo do zero.

Não por acaso, escolhi o texto Dos fundadores da internet, um aviso para “abrir os trabalhos”. Nele, David Clark – um dos fundadores da internet – elenca algumas de suas preocupações com os rumos que a rede mundial de computador vinha tomando. Perigos como a falta de privacidade nas redes sociais, tão em alta devido ao recente caso da venda de dados pela Cambridge Analytics (saiba mais), já estavam entre seus temores. Em 2008 as redes sociais pareciam o prelúdio de uma comunicação mais livre e democrática. Hoje sabemos (e em 2017 já sabíamos) que, no geral, é o oposto.

1 ano depois

Parece coincidência ou que eu planejei, mas de junho de 2017 até hoje foram 100 textos publicados aqui no OCOMPRIMIDO. Deu quase 1 ano certinho para este centésimo post. Para quem nasceu como “dose-diária”, uma média um tanto vergonhosa de pouco menos de 1 texto a cada 3 dias. Por outro lado, se antes o problema era a falta de informação, hoje a desinformação na internet é causada principalmente pelo excesso de conteúdo. É tanta luz que estamos todos ficando cegos, para usar uma alegoria da Sylvia Moretzsohn, jornalista e autora de vários livros sobre jornalismo e comunicação (e minha professora na faculdade). Com tudo isso, percebi que o site não poderia funcionar como antes. Postar um texto a cada 3 dias não é pouco, pode até ser muito. Tudo depende mais da qualidade do que da quantidade.

Fazer um compilado de informação rasa, ainda que bem apurada, na melhor das hipóteses seria mais um texto a ser compartilhado em correntes do WhatsApp. Acredito que não é isso que fará a diferença nos dias de hoje. No sentido contrário, algo como o excelente Boatos.org, do colega Edgard Matsuki, já está muito bem representado. Para quem não conhece, o foco dele é perseguir boatos, correntes e fake news e desmenti-los.

Assim, cada vez mais OCOMPRIMIDO foi se tornando um agregador de conteúdos. Textos, vídeos, podcasts, todo tipo de material que se aprofunda em assuntos que estão sendo pautados de maneira rasa pelo debate público. Ressalto que responder a grande imprensa não mais é o foco, mas sim o que está sendo discutido na internet e principalmente nas redes sociais, que agora possuem vida própria. E digo “foi se tornando” porque confesso não ter sido algo planejado de início. Durante um tempo, por exemplo, revivi o quadro “Prescrição da semana” (veja aqui um exemplo), ainda um resquício do OCOMPRIMIDO lá de 2014. Para mim foi uma experiência muito boa, ajudou a me organizar e planejar melhor a semana (trabalho na Câmara dos Deputados). O retorno de vocês, por outro lado, foi quase zero. Ok, é assim mesmo, tentando e aprendendo com os erros.

Novo foco

Contextualizar as notícias e informações que estão sendo mais compartilhadas, apresentar os principais atores envolvidos e tentar entender a realidade sob diferentes pontos de vista. Tudo isso, claro, numa ótica declaradamente de esquerda. Parece impossível, mas não é. É possível assumir um lado e ainda assim reconhecer erros, acertos e canalhices dos outros lados – e inclusive do próprio. Analisando os textos que escrevi e que compartilhei, é mais ou menos isso que tenho feito neste último ano. Outro desafio é não ser apenas reativo. Abordar temas que não estão no debate político atual, mas deveriam/poderiam estar ou que poderão entrar num futuro próximo é tão (ou mais, na verdade) importante que desmentir corrente de WhatsApp. Esse é o horizonte que vejo nos próximos cem, mil, dez mil textos publicados aqui no site.

De vez em quando entram também assuntos “amenos”, como receitas, dicas de viagem, tecnologia etc. Não acho isso ruim, pelo contrário, faz parte disputarmos todos os aspectos da vida em sociedade. Posts sobre tecnologia tem sido MUITO acessados e gerado um retorno muito positivo. É o caso do review do projetor UNIC46, que recebe centenas de acessos semanais e já recebeu quase cem comentários. O tutorial Como usar microfone de lapela em qualquer celular android, aliás, é a matéria mais lida do site. Pretendo investir mais vezes neste tipo de conteúdo, principalmente em tutoriais que podem ser usados diretamente pela militância e interessados no assunto.

Importante: sempre bom ressaltar que não tento aqui no site apresentar “a verdade” – até porque, como conceito filosófico, ela não existe. Imparcialidade, então, existe tanto quanto o Papai Noel (e olha que eu tenho dois jogos sobre o bom velhinho, confere lá).

“Este site utiliza cookies”

Outra coisa que aprendi nesse recomeço foi a entender melhor os riscos em relação as ferramentas que utilizo no site. Sempre usei, por exemplo, o Google Analytics para saber quais textos mais lidos, de onde vem o meu público etc. O problema é que isso é dar ainda mais poder às corporações. É um serviço gratuito, mas será que vale o preço? Enquanto ainda utilizo, criei uma página com a nossa Política de Privacidade, em que tento explicar – talvez até para eu mesmo – o motivo de usarmos este e outros serviços de terceiros e como funciona a política deles de proteção aos dados pessoais. De todo modo, é algo que pretendo amadurecer, estudar mais e pesquisar por alternativas viáveis e livres.

O mesmo vale para o Google Adsense (plataforma de anúncios do Google). Para um retorno ínfimo (ganhei menos de 20 dólares do começo do ano pra cá), o serviço coleta dados dos visitantes e do próprio site. Por outro lado, há poucas opções para quem faz um conteúdo que não é chapa-branca. Tentei alguns outros anunciantes, como o brasileiro Lomadee e o Viglink, e foi ainda pior. Também não pretendo aceitar posts patrocinados de, sei lá, fabricantes de celular ou coisas do tipo. Será que algo como um Catarse ou Apoia.se iria para a frente? São iniciativas que pretendo testar para sair da dependência dos serviços Google. O que acham sobre isso? Por enquanto o site é praticamente um hobbie, que só gera gastos, mas e se eu quisesse investir mais nele e esperar um retorno também financeiro?

Agradecimentos

Apesar de tocar este blog majoritariamente sozinho, tenho que agradecer de coração algumas pessoas especiais que fazem parte desta história e são autores aqui no OCOMPRIMIDO (além, é claro, de todos vocês que estão lendo este texto). Minha companheira e escritora, Elizabeth França, que além de escrever me ajuda a revisar os textos mais difíceis e torna meus dias mais felizes; as Agências Pública e Ponte, que oferecem parceria gratuita a qualquer portal que pretende divulgar conteúdo bem apurado e de qualidade; e ao canal Tese Onze, em nome da autora Sabrina Fernandes, que tem feito um excelente trabalho no Youtube.

OCOMPRIMIDO do futuro

Como disse Luiz Carlos Prestes, nosso Cavaleiro da Esperança, “só não erra quem não faz nada, mas esse é o maior erro de todos”. Continuarei investindo neste blog e espero estar contribuindo para o debate público, para o amadurecimento da nossa democracia e a construção de uma sociedade com menos desigualdade. Tudo isso passa por informação de qualidade e um público bem informado, que sabe verificar o conteúdo que recebe – mesmo que ele desafie a sua visão de mundo.

Sobre o autor

Thiago Vilela

Graduado em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), estudei Belas Artes na Universidade do Porto (Portugal) e Artes Gráficas na RedZero (Full Sail University). Trabalhei como Assessor de Imprensa e Editor de Vídeos na Comissão Nacional da Verdade (CNV) e hoje sou Assessor de Imprensa na Câmara dos Deputados.

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